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OPINIÃO

UMA NOTA DE JAZZ
A propósito do Dia Internacional do Jazz

Por Fernando Ziegler Raimundo

 

 

“ – Francie, achas que me deixarão dançar com esta camisa de caqui?
– Por que não? Estás decente.
– Sinto-me pouco à vontade.
– No restaurante, a orquestra de Jazz tocava Hindustan. Cheirava a chop-suey e a salsa
chinesa. As mesas estavam separadas por biombos. Sentaram-se. Rapazes de
cabelos lustrosos e raparigas de cabelos curtos dançam, estreitamente abraçados.
Sorriram.
– Tenho uma fome!
– Muita?
Prendeu os joelhos dela entre os seus.”

John dos Passos (1896-1970), in Manhattan Transfer (1925), Ed.Círculo de Leitores

Eh, eh … mas há lá melhor para descontrair do que uma música que toque o coração, o corpo e a alma?

Mais de cem anos após a fermentação, trata-se de um verdadeiro processo alquímico, a aceleração das vibrações, o abanar das certezas, a aventura, tudo o que só naquela América das oportunidades e do sonho – talvez diferente da de hoje, presumo – poderia fazer medrar.

Centenas de anos de escravatura, humilhacões, opressão e desprezo só poderiam gerar o oposto, o gosto e a celebração da liberdade.

Os trabalhos nos campos de algodão, suados ao som de cantos angustiados e sincopados aliviavam e relativizavam um pouco o sofrimento.

À noite, um banjo e uma bateria de latas ajudavam a anestesiar as dores nas costas.

E gradualmente se foi construindo uma musicalidade que, da percussão ao sopro, ajudou a consolidar comunidades agrícolas, e mais tarde urbanas, em que os traços principais se baseavam na tradição oral, no acentuar do 2º e do 4º tempo do compasso quaternário e na improvisação, condimentos, entre outros, que caracterizam a expressão musical que veio a chamar-se de Jazz, não existindo unanimidade quanto à origem do termo.

Não se pode falar de Jazz sem invocar o seu ADN, a sua matriz saudosista e arcaica, de raiz africana, o blues, que nos remete para uma dor sentida, não necessáriamente má, que tolhe a alma e despretensiosamente conta histórias, um pouco como o Fado.

Rural e acústico, ou urbano e eletrificado, o blues é, na opinião de Miles Davis, a quinta-essência do Jazz, o recôndito da sua alma, o calor latente que estimula o processo dinâmico e criativo inerente a este género musical.

Quando a criatividade, a alegria e os ritmos acelerados inerentes à crescente e rápida industrialização e urbanidade que a sociedade americana promoveu se acentuaram tornou-se impossível ignorar a pujança desta música que começou por suscitar muita curiosidade e que, à semelhança de outro dos ícones americanos, primeiro se estranhou mas depois se entranhou.

Depressa esta música negra que teve o seu berço em Nova Orleães, se espalhou e foi recuperada também por brancos, num processo de miscigenação que é outra das suas características. E que conduziriam a uma rápida internacionalização, misturando-se com as tradições locais e reinventando-se.

Curiosamente, um dos períodos de maior expansão do Jazz correspondeu, genericamente, ao da Grande Depressão em que a criatividade e o improviso exigiram a resposta a chamadas inesperadas que sempre apelam a qualidades que no momento podem ser decisivas. Tal como com o virus que agora nos assola. Também no período da ‘lei seca’, os bares e clubes em caves escondidas testemunhavam aquela transgressão que tanto caracteriza e estimula a inventiva musical.

Poderemos considerar três músicos como tendo sido os mais representativos dos diferentes capitulos da História do Jazz, expressão musical que, em menos de 100 anos, conseguiu catapultar-se dos bairros pobres suburbanos para os mais conceituados palcos internacionais.

Primeiro, Louis Armstrong, que conseguiu angariar o reconhecimento e a afirmação do Jazz com um estatuto liberto dos constrangimentos paternalistas que a ele estavam, de certa forma associados, muitas vezes ridicularizando, e noutras condescendendo, as manifestações artísticas dos negros, que usando chapéu de coco e imitando os ´clichés’ dos brancos, embora ironizando, eram amiúde olhados com desconfiança e soberba.

Armstrong, com um discurso musical irrepreensível, uma voz rouca que fazia a delícia de todos, conseguiu angariar uma respeitabilidade incontornável a esta jovem manifestação musical.

Mais tarde, nos anos 40, surge Charlie Parker que, em termos musicais, liberta o Jazz das limitações um tanto ‘quadradas’ do seu ritmo e harmonia, inaugurando um discurso musical muito fuido e solto (daí chamarem-lhe The bird) livre e libertador, com fantásticas improvisações, a que se chamou de be-bop.

Hoje parece-nos normal o que Parker iniciou, mas na altura foi tão revolucionário que, mesmo entre outros músicos, gerou perplexidade. O próprio Armstrong ironizava acerca do be-bop e houve críticos, mais conservadores ou limitados, que anunciavam já o fim do Jazz.

John Coltrane foi a terceira figura que, neste enquadramento, considero fundamental e que transporta o Jazz para outra dimensão, conferindo-lhe até uma certa espiritualidade e que influenciou várias gerações de músicos. Constituiu o principal quarteto dos anos 60 do século passado, tal como Miles Davis, com quem antes tocara, tinha constituido a mais importante formação, em quinteto, dos anos 50.

Será injusto não falar, neste pequeno texto, sobre tantos outros músicos, como os que iniciaram importantes etapas seguintes dentro do movimento freejazz, que (des)obedecendo a uma ordem intimamente assumida permitiu a liberdade total no campo da improvização – individual e coletiva – através do recurso a três tipos de estética, que alguns autores sintetizam em função dos instrumentos que a protagonizam: estética do grito, para os instrumentos de sopro; estética da catástrofe, para os instrumentos de percussão e estética do zumbido para os instrumentos de cordas.

Seguiu-se o recurso à eletrónica e lá vem, de novo, Miles Davis imprimir uma nova dinâmica, sempre acompanhando a evolução tecnológica mas sem nunca renegar as origens primitivas da sua música, utiliando em simultâneo sintetizadores com instrumentos arcaicos.

E depois, tantos virtuosos, de tantas tradições musicais autótones, de tantas raças e continentes que continuam a testemunhar o caracter universal desta expressão que se vai continuamente reinventando, servindo de canal áqueles que amam a arte, enquanto manifestação da inquietação da alma humana.

Fernando Ziegler Raimundo

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