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SOBRE A “VIVÊNCIA EM AUSÊNCIA DE DESEJO” (2ª parte)

 

OPINIÃO

Sobre a “vivência em ausência de desejo”, vista como um ideal das filosofias budista e espiritualista

Por João Malveiro

 

Segunda parte: Estabelecimento de uma relação entre o tempo (envolvido no desejo/projecto) referenciado na filosofia budista e uma determinada interpretação do “pecado original”

Se esta reflexão tem alguma ponta por onde se lhe pegue (pois isto é uma pura análise especulativa da minha parte e eu não sou nenhum especialista na matéria), a eventual “condenação” do desejo na filosofia budista não tem, assim, nenhuma relação com a ideia de pecado que encontramos na cultura judaico cristã, associada, por exemplo, à satisfação do desejo sexual – quando essa satisfação é alcançada na ausência da regulação do “sagrado matrimónio”.

Contudo, talvez possamos considerar a possibilidade de estabelecermos uma relação (um ponto de contacto) entre o que a filosofia budista identifica como a causa do sofrimento humano (o desejo/projecto) e a ideia fundadora do pecado da cultura ocidental: o pecado original. O que é o pecado original? – Segundo a alegórica passagem bíblica que relata a expulsão do Adão e da Eva do Jardim do Éden, essa expulsão ter-se-ia ficado a dever ao facto dos nossos “primeiros pais” terem passado a conhecer/distinguir o bem do mal, após a ingestão do fruto proibido – o fruto colhido da árvore do conhecimento. Ou seja, o pecado original está intimamente associado aos actos de conhecer, avaliar, decidir, deliberar e, consequentemente, aos actos de operacionalizar e de concretizar (no tempo) as idealizações, as finalidades, os projectos, os desejos.

Isto quer dizer que, na cultura judaico cristã, pecado original e natureza humana são duas expressões equivalentes, pois conhecer (e reconhecer-se), avaliar, idealizar, decidir, operacionalizar e concretizar finalidades/projectos/desejos é o que caracteriza o homem. Nestes termos, poder-se-á, sempre, estabelecer-se uma relação do que quer que seja com o pecado original, se o que pretendemos é estabelecer uma relação em que um dos seus termos é a natureza humana. É o que estou fazendo nesta reflexão, ao sugerir a existência de uma relação entre o pecado original e o problema budista (o tempo/pensamento projectivo) – ou seja, entre o essencial da natureza humana e o problema budista.

A relação que encontro entre o problema budista e o pecado original é que, Buda, na sua labuta para descortinar a razão de ser do sofrimento (insatisfação) humano encontrou, precisamente, aquilo que caracteriza a natureza humana (impregnada de pecado original, segundo a visão judaico cristã): o desejo – melhor dizendo, o projecto, o pensamento, o conhecimento, o ideal, a finalidade, a concretização realizada no tempo!… Isto quererá dizer que, para o budismo, o sofrimento só poderá ser ultrapassado quando “deixarmos de ser humanos” (encontra-se aqui implícita uma tese a respeito da possibilidade de alteração da natureza humana – evolução espiritual), ou seja, quando “vivermos em ausência de projecto”, quando vivermos fora do tempo – na eternidade – a que corresponderá, na cultura judaico cristã, a redenção do pecado original e a “salvação”.

Neste enquadramento, como poderemos “ultrapassar” o sofrimento (na versão budista, como poderemos atingir o “despertar”) e como poderemos redimir-nos do pecado original (na versão judaico cristã, como poderemos “salvar-nos”)? – Na linguagem bíblica, isso (a “salvação”) poderá acontecer se, uma vez mais, conseguirmos “ludibriar” o divino, ingerindo outro fruto proibido: o fruto da árvore da vida (ingestão, essa, que nos abrirá as portas da vida eterna). Só que o “Senhor Deus, Iahwveh”, relativamente ao fruto desta árvore, terá sido mais cauteloso, resguardando-a e protegendo-a com querubins armados de espadas de fogo flamejante! Em consequência, parece que não teremos grandes hipóteses de nos “salvarmos”, de nos “salvarmos” por nós próprios, sem nenhuma “ajuda”.

Encontramos uma dificuldade semelhante na filosofia budista: parece que também não poderemos atingir o “despertar” porque, na prática, pretender e fazer por “viver em ausência de projecto” é, paradoxalmente, ainda um projecto – o que significa que aquela vivência é irrealizável!…

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