SOBRE A “VIVÊNCIA EM AUSÊCIA DE DESEJO” (4ª parte)

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SOBRE A “VIVÊNCIA EM AUSÊCIA DE DESEJO” (4ª parte)

OPINIÃO
Sobre a “vivência em ausência de desejo”, vista como um ideal das filosofias budista e espiritualista, (4ª e última parte)
Sobre os acontecimentos graciosos, interpretados à luz do espiritualismo gnóstico
Por João Malveiro

 

O que é o “eu”? – Ninguém consegue responder com seriedade a esta pergunta, sem que lhe restem dúvidas e inúmeras interrogações que ficam sem resposta. Uma coisa é certa: todos sentimos que somos um “eu”, mas defini-lo de uma forma minimamente satisfatória parece ser uma tarefa impossível!… Talvez por isso, e para simplificar a questão, haja uma tendência para os modelos psicológicos que pretendem explicar o “eu” o subdividirem em compartimentos diferenciados: isso acontece com a psicanálise (através das classificações de: ego, infra ego e superego) e, também, com a psicologia esotérica (através da classificação: eu inferior, eu superior, mónada), por exemplo.

Não vou, aqui, entrar em detalhes explicativos destes modelos. Invoquei-os apenas para sublinhar que, quando se fala de uma realidade complexa, por vezes torna-se conveniente traduzi-la através de imagens/conceitos que são, necessariamente, redutoras.

Vem isto a propósito do significado da expressão “gracioso”, utilizada na terceira parte deste texto, aquando da sustentação da ideia de que a “vivência em ausência de desejo/projecto” é um acontecimento gracioso (do género da graça divina).

Importa referir, no entanto, para clarificar o que pretendia dizer, que apesar da expressão “gracioso” ter a sua raiz na cultura judaico cristã, a ideia ali desenvolvida pode ser entendida à luz do espiritualismo gnóstico se admitirmos que o “divino”, nela referenciado, tem um significado que se compatibiliza com a tese gnóstica do “Deus imanente”.

Nesta tese, o “eu” mais profundo de nós próprios é divino, mas como não temos dele uma vivida e completa consciência, na prática tudo pode ser tratado/traduzido como se o divino fosse algo exterior a nós. Nestes termos, escolhi propositadamente a expressão “gracioso”, correndo o risco de ser mal-interpretado (daí esta explicação suplementar), porque julgo que, apesar de tudo, ela é a melhor tradução do acontecimento experienciado na “vivência em ausência de desejo/projecto”. Porquê? – Porque encontrando-se, nessa vivência, substancialmente atenuada a dinâmica projectiva (tempo) e sendo essa dinâmica o que, fundamentalmente, caracteriza a natureza humana, tudo se passa como se fosse um “divino exterior” a operar o referido acontecimento, e não nós próprios.

 

João Malveiro

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