QUANDO O DECLÍNIO DA POLÍTICA É O DECLÍNIO DA ÉTICA

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QUANDO O DECLÍNIO DA POLÍTICA É O DECLÍNIO DA ÉTICA

Politicamente, vivemos tempos crescentemente conturbados e as perspetivas não são as melhores.

Ao fim de décadas de expensão, o regime político a que chamamos Democracia, parece estar em declínio. Não sendo um sistema perfeito (já Churchill dizia, há cinquenta anos, que era apenas o menos mau de todos), a Democracia tem, naturalmente, falhas e imperfeições. Algumas estão a tornar-se particularmente evidentes em alguns países-chave e ameaçam já a sobrevivência do próprio regime democrático (a curto prazo, num primeiro e facilmente observável momento) e, em segunda instância, da própria estabilidade e viabilidade das sociedades desses países (a médio/longo prazo e numa observação mais difícil, que exige um certo conhecimento da História que nem todos têm ou querem ter).

Ao contrário do que muitos querem fazer crer, este declínio da Democracia não é uma questão que encaixe no binómio ideológico-partidário entre esquerda e direita. O que de facto acontece é que a Democracia está a ser atacada por discursos e práticas tanto de extrema-direita, como de extrema-esquerda. Nenhuma ditadura é melhor porque é de esquerda ou de direita pois nenhuma ditadura é boa para qualquer povo.

Façamos um exercício e olhemos para a História mundial recente, dos últimos 150 anos. São raríssimos (eu até diria, inexistentes) os casos em que regimes totalitários tenham sido bem sucedidos no desenvolvimento económico-social, no respeito pela dignidade humana, no atenuar das desigualdades ou em garantir paz, segurança e estabilidade. Pelo contrário, é facilmente constatável a relação entre Democracia, por um lado, e progresso económico e social, por outro. Os países mais desenvolvidos do mundo são democracias consolidadas. Têm problemas e falhas – isso é certo – mas são democracias.

Contudo, continuamos a ser uma espécie (Homo Sapiens Sapiens) medrosa, receosa de perigos e predadores, nem que sejam imaginários. Há milhares de anos receávamos leões, tigres e hienas. Hoje, muitos de nós andam assustados com os nossos semelhantes porque eles são pobres; ou porque são imigrantes; ou porque têm uma cor de pele diferente; ou porque falam outra língua; ou porque não tem as mesmas preferências sexuais; ou porque não professam a mesma religião; ou porque não comem o mesmo; ou porque, pura e simplesmente, são diferentes no mais pequeno dos pormenores. Vivemos com medo da diferença e há quem explore politicamente tudo isto para corroer a vivência democrática e instaurar totalitarismos que, inevitavelmente, levarão ao ódio, ao confronto, à guerra, à destruição.

Contudo, são exatamente essas diferenças entre cada um de nós que suportam e justificam a Democracia, regime político que, por sua vez, nos permitirá viver em paz e em segurança. Os rebanhos de ovelhas indistintas e acéfalas só servem para ditaduras e exigem sempre um largo contingente de lobos que, ao mesmo tempo que assustam, também gostam de aparentar que são eles que guardam.

Porém, para se ser diferente é preciso Liberdade e sentido ético. Quando discordamos de alguém que vota em ideologias que discriminam em função da ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual, já não estamos a discutir meras divergências políticas – estamos a falar de algo muito mais grave: falamos de divergências éticas com alguém que perdeu totalmente a noção do que é viver conscientemente em comunidade, com liberdade e responsabilidade. É, na verdade, um declínio ético. Daqui o declínio da Democracia, daqui o declínio do sentido de Humanidade.

Até para a semana. Pensem sobre isto e desfrutem de Odivelas!

 Fernando Sousa Silva
(sociólogo)

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