OPINIÃO/ CRUZEIRO: TUDO PARECE IMPOSSÍVEL ATÉ QUE SEJA FEITO…

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OPINIÃO/ CRUZEIRO: TUDO PARECE IMPOSSÍVEL ATÉ QUE SEJA FEITO…

Tudo parece impossível até que seja feito…

Considerando que a manipulação está presente nas nossas vidas e, se queremos ser livres, temos de nos habituar a ser críticos perante o que nos oferecem.

Segundo o linguista, filósofo e activista político norte-americano, professor no MIT, Avram Noam Chomsky, «a propaganda representa para a democracia aquilo que o cassetete [isto é, a polícia política] significa para o estado totalitário.»

No livro “A Manipulação do Público” da autoria de Edward S. Herman e Avram Noam Chomsky, os autores começam por explorar a propaganda nos meios de comunicação, que leva à distorção sistemática da cobertura das notícias, através dos seguintes cinco filtros:

  1. A propriedade dos meios de comunicação pertence a grandes empresas;
  2. O financiamento é obtido, não das receitas oriundas dos seus leitores, mas sim da publicidade, o que poderá induzir a que sejam publicadas notícias que reflictam os desejos, as expectativas e os valores dos anunciantes;
  3. As fontes de informações, que para a maior parte das notícias têm origem ou nas agências de informação pública, ou nas corporações que circundam em torno dos media;
  4. A pressão oriunda de grupos de opinião, pretendendo o estabelecimento de uma nova linha editorial;
  5. O código deontológico e/ou de conduta ditados nas normas da profissão de jornalista.

Felizmente nem sempre assim é, mas importa que estejamos atentos!

Assim, o 4.º poder tem-se constituído um sistema de propaganda descentralizado, embora não conspiratório, por não ser articulado, mas extremamente poderoso. As coisas complicam-se quando entroncamos estes filtros com práticas intencionais de manipulação. É neste quadro que importa observar os 10 mandamentos da manipulação mediática:

  1. A estratégia da distracção: Consiste em desviar a atenção do público dos problemas e das decisões importantes através da introdução contínua de distracções e de informações insignificantes. Por exemplo, aqui em Odivelas em plena campanha eleitoral autárquica enquanto nos Gabinetes o Governo e os Autarcas preparavam o corte da linha amarela, faziam-se passear precisamente no metro dando vivas pela sua existência. Interessante, os coveiros conseguiram fazer-se passar por salvadores e foram compensados nas urnas.
  2. Criar problemas e depois oferecer-se soluções: Cria-se um problema para causar determinada reacção no público, a fim de que este seja o mandante das medidas que se pretendem implementar. Por exemplo, fazem-se estudos que nada demonstram, comparando as vantagens de extensão da linha vermelha de São Sebastião a Campolide com a extensão da linha verde ao Cais Sodré, para concluir que esta última beneficiaria um número maior de passageiros. Dirão que se tratou de um exercício inútil que qualquer um seria capaz de responder sem grandes estudos, contudo o facto é que com esta estudo-falácia se justificou a imperiosa necessidade de fazer chegar a linha amarela ao Cais Sodré e assim criar-se a malfadada linha circular, deitando por terra projectos estudados e consolidados.
  3. A estratégia da gradualidade:Uma medida inaceitável que, se aplicada em lume brando, a conta-gotas, por anos consecutivos, acaba por ser aceite. Imagine o que seria, de uma assentada, retirar o acesso ao centro de Lisboa a 500.000 portugueses, contudo e quando a indignação popular começou surgiu a ideia de que não seria bem assim, pois o acesso só não seria directo nas horas mortas do dia e aos fins-de-semana. Quando nos apercebermos só teremos a Linha dos Arrabaldes ou o Ascensor da Calçada de Carriche, que é nisso que estes senhores estão a trabalhar.
  4. A estratégia do diferimento:Nada melhor para garantir a aceitação de uma decisão impopular do que apresentá-la como só sendo para aplicar no futuro. As pessoas vão tendo metro a umas horas e deixando de ter a outras e quando se aperceberem já se acostumaram à ideia e aceitá-la-ão resignadamente. Ainda por cima isto tudo só acontecerá lá para 2023/2024. Por quê preocuparmo-nos agora?
  5. Dirigir-se ao público como se fossem menores de idade:Esta técnica afirma-se na infantilização dos discursos e das imagens usadas na comunicação, quase a roçar a debilidade mental, procurando uma resposta ou reacção também desprovida de um sentido crítico. Muito comum na comunicação baseada nos chamados “sound bites” com recurso a um jargão primário, onde singram afirmações como essas “vozes dissonantes são ruído”, algo recentemente feito pelo Senhor Presidente de Câmara, que a atalho de foice ainda sugeriu que aqueles que civicamente intervieram contra o corte da linha amarela teriam uma agenda eleitoral.
  6. Utilizar o aspecto emocional mais do que a reflexão:A introdução de elementos de toda uma imagética emocional, visando cercear qualquer análise racional e o sentido crítico dos indivíduos, permitindo ainda a implantação de ideias, desejos, medos e temores, compulsões ou induzir comportamentos. Na mesma altura, tentou o Ministro do Ambiente e tentou o senhor Presidente da Câmara Municipal de Odivelas passar a ideia que quem se opunha ao corte da linha amarela vivia esta questão de forma fantasiosa e eram uns meros resistentes à mudança, quais Velhos do Restelo. Basta a ler a teoria dos mitos publicado no jornal Público, 24 horas depois de publicada uma entrevista dos cidadãos que estão @Contra o Fim da Linha Amarela.
  7. Manter o público na ignorância e na mediocridade: Incapacitar o público de compreender as tecnologias e os métodos utilizados no seu controlo. A difusão por órgãos próprios, páginas na internet mais ou menos pessoais, de ideias que roçam o ilusionismo no sentido de baralhar, confundir e manter as pessoas incapazes de terem uma opinião séria sobre factos e dados, foi algo também por aqui formulado, chegando-se mesmo ao ponto de pretender fazer crer que o Sr. Presidente da Câmara Municipal de Odivelas, qual herói de momento tinha resolvido o problema. Tudo isto feito quando ao mesmo tempo, este herói sem capa afirmava que “sempre tinha estado com o Governo e com o Metropolitano de Lisboa”, esquecendo-se de estar com a população que tem obrigação de proteger.
  8. Estimular o público a ser complacente com a mediocridade:Levar o público a crer que é moda o facto de se ser estúpido, vulgar e inculto. Frases como “Não interessa nada saber quanto custará esta linha circular”, ou “Nem sequer interessa quais os tempos estimados entre comboios”, resumem a ideia de que o que importa é que apesar de nos estarem a tramar, ainda assim se acredite que estes senhores “são os maiores”.
  9. Reforçar a auto-culpa:Fazer as pessoas acreditarem que são culpadas da sua própria desgraça, devido à pouca inteligência e à falta de capacidade ou de esforço. Tem sido afirmado reiteradamente pelo Sr. Ministro do Ambiente e pelo Sr. Presidente da Câmara de Odivelas, que a redução do número de viagens a Odivelas se impõe por estarmos na presença de um custo não compensado pelo número de passageiros. O Sr. Ministro chegou mesmo a afirmar que “o Metro foi feito para andar cheio”. Contudo, este sentimento de culpa que nos querem impor esquece os números do próprio Metro que referem que as estações de Odivelas são de longe as que mais entradas e saídas de passageiros têm em toda a rede do Metro.
  10. Conhecer os indivíduos melhor do que eles mesmos se conhecem: Nos últimos 50 anos, os avanços da ciência permitiram conhecer física e psicologicamente o Homem como nunca. Porém, aumentou a distância entre os conhecimentos do público e os conhecimentos ao alcance das chamadas classes dominantes. O facto é que sempre que surgiram vozes dissonantes a este corte previsto para a Linha Amarela do Metro verificou-se de imediato o recurso a uma linguagem ainda muito aceite entre nós. Linguagem essa que remete os detentores do poder para um patamar de “magister dixit”, qual pai protector e absolutista a que todos estamos sujeitos pois “eles, sim, sabem o que fazem”. E isto funciona tão bem junto de um povo que sempre que vê algum dos seus a manifestar-se, faz tudo para o julgar como alguém que se está a colocar em bicos de pés. Felizmente isto tem vindo a mudar.

Importa que nos interroguemos se temos estado à altura e se temos sido capazes de defender as conquistas que advieram daquela madrugada, que nos trouxe as liberdades sonegadas por um regime opressor. Será que nos construímos enquanto indivíduos melhores, mais conscientes, mais conhecedores, mais participativos, mais altruístas?

Aos senhores governantes, um conselho: Não clamem pela cidadania e depois façam de tudo para a reprimir e subtrair quando ela surge. Não estraguem a democracia!

Não poderia terminar sem dirigir um bem-haja à Rádio Cruzeiro por este espaço de Opinião, onde diariamente vozes e formas de pensar, dissonantes aqui, coincidentes ali, se expressam e, assim, contribuem para a síntese do pensamento e da acção de quem connosco se interroga. Mas também saúdo esta rádio pela capacidade, de sem filtros, colocar no ar todas as opiniões, atitudes e acções daqueles que afectarão a vida dos odivelenses, bem como daqueles que tudo têm dado e vão continuar a fazê-lo @Contra o Fim da Linha Amarela.

A este propósito e mesmo para terminar, deixo a informação que a próxima semana trará novos desenvolvimentos. Esteja atento/a.

Não esqueça:

Tudo parece impossível até que seja feito!

Sim, a Linha Amarela é para chegar ao centro de Lisboa, em permanência.

Estimados leitores, como é sabido, poderão encontrar esta e outras reflexões em http://radiocruzeiro.pt.

Procurarei estar convosco daqui a uma semana, neste mesmo espaço.

Até lá!

 

 

 

Paulo Bernardo e Sousa

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