OPINIÃO/CRUZEIRO: PLÁGIO

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OPINIÃO/CRUZEIRO: PLÁGIO

Plágio

Passei mais de uma semana, até me decidir, partilhar este conto de Kahlil Gibran.

Como ele, com as ligeiras adaptações, ainda é traduzível para os dias de hoje.

Assim, tomei a liberdade, de copiar e adaptar este conto, que espero, vá servir para cada um e cada uma de nós,meter a mão na consciência…

Dentes Podres

Eu tinha um dente podre na boca que me estava a incomodar. Durante o dia estava dormente, mas na tranquilidade da noite, quando todos dormiam, começava a doer.

Um dia, como estava a ficar sem paciência, fui ao dentista e disse-lhe para me arrancar o maldito dente que me fazia tão infeliz e me roubava o prazer do sono, transformando o silêncio da minha noite em lamentos e tumultos.

O dentista abanou a cabeça e disse: “ É insensato arrancar o teu dente se o podemos curar.”

Então, começou a perfurar os lados do dente, a limpar-lhe as cáries e usou todos os meios possíveis para o restaurar e libertá-lo da podridão. Quando acabou de perfurar, encheu-o de ouro e disse, gabando-se: “ O teu dente mau agora está mais forte e mais sólido que os teus dentes bons.”

Eu acreditei nele, paguei-lhe e vim-me embora.

Mas ainda não tinha passado uma semana quando o maldito dente voltou a doer e a tortura que ele me fazia transformava as belas canções da minha alma em gemidos e agonia.

Então, fui a outro dentista e disse-lhe: “Arranca-me este maldito dente, sem me fazer perguntas, porque quem leva as pancadas é diferente de quem as conta.”

Obedecendo à minha ordem, ele arrancou o dente.

Olhando para ele, disse: “Fizeste bem em arrancar este dente podre.”

Na boca da Sociedade há muitos dentes podres, doentes até aos ossos do maxilar. Mas a Sociedade não se esforça por os arrancar e para se ver livre do problema. Contenta-se com coroas de ouro.

São  muito os dentistas que tratam dos dentes podres da sociedade com ouro brilhante.

São muito os que cedem às seduções destes reformadores e a dor, a doença e a morte são o seu destino.

Na boca da nação,ou distrito, ou concelho, estão muitos dentes podres e sujos que infetam e fedem. Os médicos tentaram fazer curas com coroas de ouro em vez de os arrancar. E a doença permanece.

Uma nação,ou distrito, ou concelho, com dentes podres está destinada a ter um estômago doente. São demasiados os atingidos por esta indigestão.

Se quiser ver os dentes podres da nação,ou distrito, ou concelho, visite as suas escolas, onde os filhos e as filhas de hoje se estão a preparar para serem os homens e as mulheres de amanhã.

Visite os tribunais e assista aos atos dos que administram a justiça, desonestos e corruptos. Veja como eles brincam com os pensamentos e as mentes da gente simples, como um gato brinca com um rato.

Visite as casas dos ricos, onde reinam a vaidade, a falsidade e a hipocrisia.

Mas, não se esqueçam de  passar pelas barracas dos pobres também, onde moram o medo a ignorância e a cobardia.

Depois visite os dentistas de dedos ágeis, com os seus instrumentos delicados, moldes de gesso e calmantes, que passam o dia a tapar as cáries nos dentes podres da nação para esconder a decadência.

Fale com aqueles reformadores que se fazem passar pela nossa elite intelectual e organizam associações, dão conferencias e fazem discursos em público. Quando falar com eles vai ouvir músicas que talvez pareçam ser mais sublimes do que a moenda de uma mó e mais nobre do que o coaxar de sapos numa noite de Junho.

Quando se lhes disser que andamos a mastigar o seu pão com dentes podres e que cada pedaço que mastigam está misturado com saliva envenenada que espalha doenças no estômago do população, eles respondem:

“Sim, mas estamos a procurar chumbos melhores para os dentes  calmantes melhores.”

E se lhes sugerir uma “extração”, vão-se rir de si, porque ainda não aprendemos a nobre arte da odontologia que oculta a doença.

E se insistirmos eles partiriam e voltando-lhe as costas, diriam entre si:

“Muitos são os idealistas deste mundo e fracos são os seus sonhos”

Pensamentos e meditações – Kahlil Gibran

Rui Santos

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