OPINIÃO/CRUZEIRO: O PANTEÃO DO NOSSO DESESPERO

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OPINIÃO/CRUZEIRO: O PANTEÃO DO NOSSO DESESPERO

O PANTEÃO DO NOSSO DESESPERO

Pois, é bem verdade que outros assuntos haverá, quiçá mais importantes do que este, que mereceriam maior atenção deste escriba voluntariamente entalado pela obrigação (mais ou menos liberalizada) de emitir a sua opinião semanal (raras vezes cumprida) sobre as graças e desgraças deste país à beira mar plantado, de que todos temos bastas razões para nos orgulharmos.

Não vou meter-me, por isso, nos escândalos que por aí vão surgindo no âmbito das coerências entre o que se diz e o que se faz, porque não quero incomodar o pobre do Frei Tomás que, seguramente, já nem se lembrará do que disse e muito menos do que fez.

Recuso também insistir nos únicos motivos de orgulho que somos capazes de reivindicar, com grandes manifestações de patriotismo festivaleiro que o Sr. Presidente da República nunca deixa de abrilhantar com a sua participação (afectuosa, como sempre, e como sempre apimbalhada), pelo simples facto de sermos capazes de enfiar mais bolas nas balizas adversárias do que as que eles enfiam nas nossas.

E, aqui, não posso deixar de declarar a razão profunda por que fico incomodado com estas festividades. É que, entre a multidão que festeja estes heroicos feitos da nossa rapaziada do pontapé na bola, vejo imensa gente que vive com o ordenado mínimo nacional ou nem tanto, gente que acaba de ser despejada da sua casita sem ter para onde ir viver, gente cujos rendimentos não lhe chegam sequer para adquirir os medicamentos que lhe poderão proporcionar mais uns anitos de vida. E é esta gente que, logo que a banda passa, vai para o café discutir da justiça, ou não, do clube x não estar disposto a pagar ao jogador y aqueles milhões de euros que o papá do dito reivindica para o seu filhote, pelo bom desempenho que já teve.

Ainda há dias, ouvi o ti Chico da barbearia da esquina a desabafar para um seu cliente: – Veja lá o meu amigo que aquele puto, que irá sem dúvida ser um grande jogador de futebol, só estava a ganhar 75.000 euros por ano. Estava a ser explorado, e faz muito bem em exigir muito mais.

Saído dali com a tosquia feita, fui consultar a declaração dos meus rendimentos anuais e fiquei melhor esclarecido. De facto, há aqui qualquer coisa que não bate certo…

Bom, mas eu queria era falar do Panteão Nacional. E para constatar, embora de forma aligeirada, o seguinte:

Fiz parte, creio que na sua primeira versão, do Conselho das Condecorações Municipais de Odivelas, não porque fosse uma “personalidade de reconhecido mérito intelectual e cívico”, nada disso, mas apenas por ter sido indicado pelo meu partido para o efeito. (art.º 24.º do respectivo regulamento).

Logo na primeira reunião realizada, tive oportunidade de emitir a opinião de que se deveriam definir critérios rigorosos para o cabal cumprimento da finalidade declarada, a saber:

– “As Condecorações Municipais têm por finalidade distinguir as pessoas singulares ou colectivas que se notabilizem por méritos pessoais, por feitos cívicos ou que hajam patenteado exemplar dedicação à causa pública por assinaláveis serviços prestados e merecedores de público testemunho de reconhecimento e com os quais tenham dado o seu contributo, para o engrandecimento e dignificação do Concelho de Odivelas. (Preâmbulo do regulamento)

Na minha modesta opinião, nada disto está a ser levado a sério. Porque o que se tem visto é bem diferente do propalado. E assim, basta que uma qualquer vedeta da nossa sociedade, que até pode ter nascido e vivido nos cús de Judas, venha beber uma cervejola a Odivelas num dia mais ou menos festivo, para logo ser apresentada como candidata a uma medalha de um qualquer mérito (que é capaz de ter, não se questiona), cujo ele nada terá a ver com o concelho de Odivelas.

Depois, e como é preciso apresentar serviço, lá vêm os mais inimagináveis personagens, cujo maior mérito é terem sido urbanizadores ou construtores civis de sucesso, sobretudo pessoal, ou comerciantes nossos amigos onde vamos almoçar, jantar ou tomar a bica, ou… ou… ou…

Como sempre tenho dito, daqui a uns anos não haverá, em Odivelas, bicho careta que não se “orgulhe” de ter uma medalha municipal para mostrar aos amigos.

O que acaba por ser ofensivo para aqueles (poucos) a quem a homenagem é devida.

Pois, mas eu queria era falar do Panteão, não é verdade?

Em verdade vos digo que o que atrás ficou dito serve exemplarmente para definir o que ali também se passa.

O ajavardar de qualquer presumível boa intenção homenageadora, acaba sempre por descambar na vil tristeza que se vai vendo.

Não quero dizer com isto, que fique bem claro, que não concordo com o facto de os corpos de Mário Soares e Sá Carneiro irem repousar, por toda a eternidade, para o Panteão Nacional. Nada disso. Se o do Marechal Carmona, insigne Presidente da República do tempo do fascismo em Portugal, já lá está, qual é o problema?

Só espero é que ninguém tenha a peregrina ideia de para lá querer levar gente politicamente séria que, em vida, rejeitaria inequivocamente tal “honraria”.

O descaramento não chegará a tanto, estou em crer. E se chegar, cá estaremos para salvaguardar a memória de quem sempre esteve do nosso lado na luta por um Portugal digno. Sem estas honrarias envenenadas, que só desprestigiam os seus fautores.

Um bom fim-de-semana para todos e umas óptimas férias para mim.

Adventino Amaro

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