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Num tempo de escolhas, umas de curto-médio prazo – falo das eleições que se aproximam – e outras de muito-curto-longo prazo, como acontece com a chamada crise ambiental, será importante abnegar-nos dos conservadores confortos que as certezas amiúde infundadas nos garantem. Facto é que a negação de evidências nunca foi boa conselheira. Ao invés, sempre que recusamos olhar para os problemas com que nos deparamos sem acautelarmos a justeza e o conhecimento necessários para os resolver, temos a tendência de nem sequer vermos esses problemas.

 

Não-decidir é muito confortável, pois coloca-nos na condição de não falharmos. Sim, é sempre mais confortável acusar os que “mal-decidem” do que apoiar, suportar e dar o “corpo às balas” por uma ideia e assim decidir num sentido ou noutro. É mais confortável, mas, além de revelar uma tendência para a preguiça, é perigoso, pois esta postura permite que tudo aconteça com a nossa silenciosa anuência.

 

Falo disto por verificar que o surgimento de forças sociais disruptivas tem incomodado. É para mim inconcebível a rejeição ou a aceitação da novidade só “porque sim”.

 

Todos nós já percebemos que algo de errado se passa com o clima, todavia parece ainda ser muito confortável “acreditar” que as alterações climáticas são algo de comum. O facto é que tal até é verdade. A geologia consegue demonstrar que a Terra já sofre fortes alterações climáticas ao longo dos tempos. Todavia, o que agora verificamos é um processo acelerado de mutação fundamentalmente originado pela espécie humana. Ora, se estamos a acelerar a história geológica e climática da Terra e se tal nos é prejudicial, porque teimamos em assobiar para o lado? Pior, porque nos atiramos aos que tal combatem?

 

Se há algo que a globalização nos trouxe foi a percepção da Terra como um todo, e assim facilmente percepcionamos a Terra como um ecossistema uno. Um dia, até haveremos de verificar que o conceito de ecossistema poderá ser mais lato e ultrapassar os limites do ainda Planeta Azul.

 

Com esta percepção, passamos a verificar que o efeito borboleta não se aplica só na economia, como quando no Médio Oriente surge um conflito e tal impele de imediato a subida dos custos dos combustíveis e assim o agravamento dos preços de tudo. Percebemos hoje que a desmatação na Amazónia, os incêndios em Portugal, ou o regresso ao carvão em detrimento do uso das energias alternativas são acções longínquas que carbonizam a atmosfera e assim estimulam o aquecimento global, visível nas desregulações das estações, com implicações nos ciclos da água e da própria produção agrícola, encarecendo os produtos alimentares e assim levando muitos à pobreza e demasiados à inanição, à fome. Assim, uma aparente simples iniciativa, lá longe, estragou a vida a muita gente.

Pior é constatar que aquilo que de forma simples aqui demonstrei há muito está cientificamente demonstrado e espelhado em relatórios de organizações ambientais nacionais e internacionais.

 

Pior é verificar que fazer algo para reverter esta situação é por todos reclamado, mas agir dentro do metro quadrado de cada um parece ainda ser impossível, inaceitável e, para alguns, mesmo inútil.

 

É sabido que a produção animal tem contribuído em parte para esta situação, contudo desprezamos, perseguimos e até gozamos com o Reitor da Universidade de Coimbra, que no seu metro quadrado de influência resolveu agir. Todavia, gastamos tempo a gozar com quem age, mas e nós? O que temos feito no nosso metro quadrado? Rir de quem age?

 

Recentemente emergiu um partido no espectro político nacional centrado nas preocupações ambientais. Todavia, a reacção foi primeiro se eram de esquerda ou de direita, depois se eram reaccionários e a seguir já eram utópicos.

Se nós, portugueses, não tivéssemos seguido a utopia, não teríamos sido os Descobridores.

Se a utopia não estivesse no ADN do Antonio Meuce, não teríamos telefones.

Se a utopia não estivesse no ADN de Nikola Tesla e de Thomas Edison, não disporíamos de electricidade.

Se a utopia não estivesse no ADN de Bill Gates, não teríamos nem software nem computadores pessoais.

Se a utopia não estivesse no ADN de Johannes Gutenberg, não teríamos escrita impressa e a massificação de livros e de conhecimento.

Se a utopia não estivesse no ADN dos portugueses, não teríamos estado na linha da frente a abolir a escravatura e a pena de morte.

Se a utopia não estivesse no ADN dos militares de Abril, porventura ainda hoje viveríamos em ditadura.

 

Assim sendo, não entendo a resistência à utopia, a resistência a sonhar e a avançar para o que é certo.

 

Sim, meus amigos e minhas amigas, quando virmos o desesperado apelo de toda uma geração no discurso da activista sueca Greta Thunberg e se não tivermos sensibilidade suficiente para entender o motivo de tamanha tristeza com que os que nos sucedem vêem o futuro, sejamos ao menos capazes de entender a justeza e justiça do conteúdo do que dizem e do apelo que nos dirigem.

 

Comentadores de mente anafada, que rejeitando as evidências científicas ou reduzindo-as à dimensão de conversas feitas entre copos, consideram que “não se passa nada” e que “nada há fazer” tendem, pelo conforto enganador que geram, a alimentar muitas mentes resistentes a sair da sua zona de conforto, das suas tradiçõezinhas, das certezas de caserna.

 

Importa perceber que todos os que assim fizerem, além de negarem o legado que nos corre nas veias, são enormes contribuintes para o entorpecimento, e, neste caso, para o fim acelerado de todos nós e dos nossos.

 

Esqueçamos pois a forma, cujo debate só serve para alegremente sustentarmos a nossa cegueira.

 

Dediquemos os nossos espíritos, as nossas vontades e as nossas acções ao conteúdo do que é dito, começando hoje mesmo a mudar tudo o que no metro quadrado está sob a nossa influência possa ser alterado para melhor. Seja a reduzir a carne que consumimos, seja a criar transportes públicos que não empurrem os cidadãos para os automóveis, como acontecerá com a Linha Circular e o encurtamento da Linha Amarela, seja a adquirir somente o que precisamos, seja a reutilizar, seja a reciclar, seja a não conspurcar o chão das nossas ruas com beatas, cuspo e outros lixos, seja a procurar energias alternativas, seja a não permitir a agressão dos homens ou das mulheres por quem quer que seja, seja a respeitar as outras espécies animais, seja a respeitar os outros indivíduos.

 

Sendo nós uma comunidade dita cristã, teremos o impulso natural de respeitar o consagrado no resumo da segunda parte do decálogo, consagrado na máxima “amar-nos uns aos outros”. Esta sim, uma utopia ainda, mas que poderemos prosseguir.

 

Procurarei estar convosco daqui a uma semana, neste mesmo espaço. Até lá!

25/Setembro/2019

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