OPINIÃO CRUZEIRO – “E QUE O GOVERNO DO POVO, PELO POVO E PARA O POVO JAMAIS PEREÇA NA TERRA”

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OPINIÃO CRUZEIRO – “E QUE O GOVERNO DO POVO, PELO POVO E PARA O POVO JAMAIS PEREÇA NA TERRA”

Esta brilhante frase não é minha. Integra o famoso discurso de Gettysburg e foi proferida em 1863 por Abraham Lincoln, um dos historicamente mais importantes presidentes dos Estados Unidos da América. Servir-me-ei dela para introduzir algumas ideias sobre o levantamento do movimento dos coletes amarelos, em França. 

No meio da violência e das pilhagens que distorceram as ideias originais deste movimento está uma questão para a qual anda muita gente, há muito tempo, a chamar a atenção – o crescente divórcio entre os políticos democraticamente eleitos e os eleitores. Entre estes dois não há apenas um fosso – há já um verdadeiro abismo que começa a revelar-se problemático, fonte de grande instabilidade social e que é, em última instância, a mais mortífera ameaça à Democracia. Quando estas falham, a alternativa é só uma – regimes populistas, demagógicos, autocráticos e ditatoriais, tanto de esquerda e de direita. 

Aquilo que vejo é que o cidadão médio, aquele que pagou a crise com reduções salariais e aumento de impostos, sente que agora é hora de ver recompensados os esforços e sacrifícios que fez. Este cidadão quer viver com conforto, com serviços públicos de qualidade, quer igualdade de oportunidades e quer pagar menos impostos. No fundo, quer Justiça e é apenas isto que se espera de uma democracia – JUSTIÇA. Qualquer Democracia tem que obrigatoriamente ter a Justiça como valor fundamental a partir do qual se constrói todo o edifício político, ideológico, constitucional, social e económico. Quando uma Democracia não consegue ser justa para com os seus cidadãos, é porque está a falhar em toda a linha e a sua utilidade começará a ser questionada pelo cidadão que, logicamente, procurará alternativas a um regime político que o devia defender mas que, afinal, está a destratá-lo. 

Os políticos europeus democraticamente eleitos estão, genericamente, afastados da realidade quotidiana dos concidadãos que os elegem, vivem em confortáveis torres de marfim, devidamente abrigados das contrariedades normais na vida do cidadão comum. Não conseguem, nem sabem ler, as aspirações legítimas dos seus eleitores e – mais grave que isto – têm uma escala de valores que, aparentemente, relegou o cidadão para o fundo da sua escala de prioridades políticas. Ou, pelo menos, é assim que o cidadão se sente pois o que ele vê nas notícias é que nunca faltou dinheiro para as grandes corporações, nomeadamente os bancos, depois de estes terem feito verdadeiras patifarias criminosas que desencadearam toda a crise que, depois, foi paga com dinheiro dos contribuintes; o que o cidadão vê é a impunidade e desresponsabilização desses mesmos banqueiros; o que o cidadão vê é uma enorme injustiça fiscal que beneficia as grandes empresas e as grandes fortunas; o que o cidadão vê é que o Estado o encara apenas como fonte de receita fiscal; o que o cidadão vê é um governo da banca, pela banca e para a banca; o que o cidadão vê é que para ele a Democracia não é justa. 

Perante isto, como não esperar que o cidadão não se revolte? Será que os líderes políticos esperavam uma atitude mansa e eternamente passiva? Se esperavam, estão errados. A História mostra exatamente o contrário, nenhum povo se cala quando se sente injustiçado. Se as democracias europeias falham neste aspeto básico, depois não se queixem da elevada abstenção ou da ascensão das ideologias de extrema-direita. 

Repentinamente, Macron percebeu que tinha que fazer alguma coisa e descobriu que, afinal, até podia aumentar o salário mínimo. Não é nenhuma medida inovadora e não sei se será eficaz para acalmar os ânimos mas prova que, quando um político realmente quer, ele pode, efetivamente, fazer algo pelo seu povo e colocar este no topo das suas prioridades. Lamentalvelmente só percebeu isto pela maneira mais dura – a da violência, da contestação nas ruas e quando pressionado. 

Pelo nosso burgo, as coisas já estiveram mais calmas e parece-me que em São Bento anda gente distraída e que ainda não viu os sinais. Não estaria já na altura de, com toda a Justiça, recompensar ou devolver ao cidadão o muito que ele deu durante a crise? É que se não o fizerem, tudo quanto é preciso para as coisas aquecerem é um porta-voz populista e protofascista que consiga mobilizar esse descontentamento. Ele ainda não apareceu (e não será o Venturinha, que não tem capacidade para isso) mas as condições para a tempestade perfeita estão criadas. Ironicamente criadas por políticos democraticamente eleitos. 

A Democracia, tem que voltar a ser do Povo, pelo Povo e para o Povo. 

Até para a semana. Desfrutem de Odivelas e tenham um MUITO FELIZ NATAL, com Saúde, Paz e Amor!  

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