OPINIÃO CRUZEIRO: BEM PREGA FREI TOMÁS – FAZ O QUE ELE DIZ, NÃO FAÇAS O QUE ELE FAZ

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OPINIÃO CRUZEIRO: BEM PREGA FREI TOMÁS – FAZ O QUE ELE DIZ, NÃO FAÇAS O QUE ELE FAZ

Faltava-me aquela tradicional crónica de Ano Novo, muito habitual nesta altura no ano, na qual, sem ser diferente de muitos outros, reafirmo os meus princípios idealistas (e não aceito que lhes chamem irrealistas), com desejos de um Mundo (e Portugal, também) em paz, mais justo, onde todos possam viver com com dignidade, justiça e em respeito pelo equilíbrio ecológico. 

Porém, este ano deparei-me com um discurso que me tirou todas as palavras e que diz tudo o que quereria dizer, de forma muito clara e assertiva. Falo da Mensagem de Ano Novo do nosso Presidente da República. Fugindo um pouco ao esquema normal das minhas crónicas, vou pegar em excertos da citada mensagem, que passo a citar e comentar:  

“Num mundo que falta em Direito, em ética, em paz, em diálogo, em justiça, em certeza, o que sobra em razão da força, em conflito, em desigualdades, em incerteza” – tantas vezes eu o escrevi e afirmei, inclusive nestas crónicas. Vivemos numa época de crescente violência, de amoralidade (ou talvez mesmo, imoralidade) que desvaloriza o respeito pelo outro e pela diferença; onde, cada vez mais o que conta é o gritar e o bater mais alto e mais forte, a imposição da força bruta. Urge combater isto, reforçar o peso ético das nossas decisões. 

“Num Portugal, que saiu da crise, reganhou esperança, mas que precisa de olhar para mais longe e mais fundo” – houve quem visse aqui uma crítica ao Governo. Eu apenas vejo um sensato e visionário apelo a uma maior ambição coletiva, de querermos ser melhores do que o que somos hojeSim, precisamos disto, de ver para além do dia a dia, de criar uma visão de futuro e batalhar por ele. 

“Nós sabemos que a resposta a estes tempos muito difíceis só pode ser uma – valores, princípios e saber aprendido com quase nove séculos de História” – Mais uma vez o apelo à ética, ao sentido de sabermos viver em comunidade, coisa que, apesar de tudo e com altos e baixos, temos sabido fazer ao longo de quase 900 anos. 

“Dignidade da pessoa, de todas as pessoas, a começar nas mais frágeis, excluídas e ignoradas – apelo aos Direitos Humanos e à proteção dos mais desfavorecidos como pilares fundamentais de uma sociedade mais justa. 

“Liberdade, diferença, pluralismo, Estado de Direito. Que não há ditadura, mesmo a mais sedutora, que substitua a democracia, mesmo a mais imperfeita” – outro tema que já referi nestas minhas crónicas: a Democracia como único sistema político, mesmo com tantos defeitos e problemas, que garante o respeito pela dignidade da pessoa humana na sua plenitude e a paz social. 

“Justiça social, combate à pobreza, correção das desigualdades. Que não há democracia que dure onde apenas alguns, poucos, concentrem tanto quanto todos os demais” – a melhor forma de suportar e sustentar uma Democracia é conseguindo que ela cumpra os seus ideais de justiça social, eliminando a pobreza e diminuindo as desigualdades. Uma Democracia que não cumpra estes objetivos é uma Democracia em risco, vulnerável a populismos, demagogias e totalitarismos. 

“O que vos quero pedir, hoje, é simples, mas exigente. Votem. Não se demitam de um direito que é vosso, dando mais poder a outros do que aquele que devem ter. Pensem em vós, mas também nos vossos filhos e netos, olhem para amanhã e depois de amanhã e não só para hoje” – a essência de Democracia, o voto como expressão individual do poder político de cada cidadão. Se cada um de nós quer um Portugal futuro melhor e mais justo para os que mais amamos, a melhor maneira de o começar a fazer é exprimindo a nossa opinião política nesse ato democrático supremo que é votar. Sim, VOTEM! 

“Chamem a atenção dos que querem ver eleitos para os vossos direitos e para as vossas escolhas políticas, pela opinião, pela manifestação, pela greve, mas respeitem sempre os outros, os que de vós discordam e os que podem sofrer as consequências dos vossos meios de luta” – sejamos muito exigentes com aqueles que elegemos mas façamo-lo com respeito, o mesmo respeito que devemos ter para com quem pensa diferente de nós. Pensemos no bem comum em equilíbrio com os nossos interesses individuais, profissionais ou corporativos. É assim que constrói uma sociedade em paz. 

“Pensem como demorou tempo e foi custoso pôr de pé uma democracia e como é fácil destruí-la, com arrogâncias intoleráveis, com promessas impossíveis, com apelos sem realismo, com radicalismos temerários, com riscos indesejáveis” – as Democracias são sempre frágeis; cada um de nós tem o dever de a construir e reconstruir todos os dias com respeito, com empatia e com sensatez. Caso contrário, correremos sérios riscos de cairmos em ditaduras ou outros regimes totalitários. 

“Podemos e devemos ter a ambição de ultrapassar a condenação de um de cada cinco portugueses à pobreza e a fatalidade de termos Portugais a ritmos diferentes, com horizontes muito desiguais” – sim, 20% dos Portugueses estão em situação de pobreza! Julgo que nenhum de nós poderá sentir-se confortável com esta realidade,com tanta desigualdade. A não ser que sejamos um poço de egoísmo e de desumanidade. 

“Políticos mais confiáveis” – um tema que me é tão caro: a ética na Política, a liderança pelo exemplo que permita aos Portugueses acreditarem nos políticos e na sua mensagem. Só assim podemos aspirar a um Portugal  mais justo. 

Em suma, um discurso que considero verdadeiramente brilhante. Digo-o com toda a independência e o à-vontade de quem não apoiou, nem votou, em Marcelo Rebelo de Sousa nas últimas eleições presidenciais.  

Mas no melhor pano cai a nódoa e depois deste discurso humanista e ambicioso, o mesmo Presidente vai ao Brasil chamar irmão a uma criatura protofascista como Bolsonaro que defende ideias tão contrárias às apregoadas na mensagem de Ano Novo. 

Eu sei que a realpolitik é, de facto, uma realidade, mas custa-me muito chamar irmão a alguém com um discurso tão violento, discriminatório, xenófobo, homofóbico e odioso. Recuso-me. É caso para dizer: – Ora, bolas, senhor Presidente, uma no cravo e outra na ferradura?

Ou será, afinal, “bem prega Frei Tomás – faz o que ele diz, não faças o que ele faz”. 

Até para a semana. Desfrutem de Odivelas e tenham um ano de 2019 com Saúde, Paz e Amor!

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