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Na sequência de algumas reflexões que tenho por aqui formulado, foi com particular agrado e interesse que li um texto que é uma reflexão do Sr. Comandante dos Bombeiros Voluntários de Salto, Hernâni Carvalho. Em jeito de rábula somos levados a reflectir sobre o que temos andado a fazer a nós próprios.

 

O quão perigoso é o conforto da não-decisão!

 

Muito melhor será apontar o dedo do que agir, fazer escolhas e quiçá arregaçar as mangas. Há uma certa cobardia latente neste desprendimento e nesta alienação que grassa por este país, onde cerca de metade de nós desconsidera a importância de decidir sobre a quem devemos delegar a função de liderar. É aviltante verificar a escolha pelo conforto de não exercer o direito de voto, acrescendo que tal desvaloriza o sangue daqueles que lutaram para que hoje pudéssemos escolher.

 

“Estou-me nas tintas”. “Eles é que sabem”. “Nós não mudamos nada”. “São todos uns corruptos”. São as frases eloquentes que mais ouvimos de quem opta por não participar naquilo que é seu. Vemos isto na relação com a sociedade em geral, como vemos isto na mera participação na vida da vila, da aldeia, do bairro e até do condomínio.

 

Num descaramento enorme, ainda há quem ouse deitar mão ao queixume de taberna, mesmo depois de se ter inibido de se posicionar. Assim é fácil. Pois é! Mas também é errado! Pelo caminho, enquanto metade prefere a madorna, a outra metade vai dando lugar a extremistas e um dia, os primeiros, quando acordarem da letargia auto-imposta verificarão que o escudo anilar foi substituído por uma suástica. E aí lamentarão, na surdina, mas ao acordarem irão perceber que até o direito ao queixume perderam. Tudo isso devido à sua própria inacção. Pena é que os que sempre agiram, também venham a sofrer.

 

Como dizia, considero de tal maneira pertinente o conteúdo do texto do Hernâni Carvalho, que o partilho hoje para que em jeito de alegoria entendamos o que temos andado a fazer. Sim, porque infelizmente o que sucede com uma qualquer Associação Recreativa dos Unidos aos Agrafadores também se repete noutros momentos.

 

Então reza assim a história:

 

«A Associação Recreativa dos Unidos aos Agrafadores elaborou o seu ato eleitoral.

 A sufrágio concorreram duas listas: a Lista A encabeçada pelo Joaquim e a Lista B cujo líder é o António que mora à beira da Farmácia.

 Dos 100 sócios apenas votaram 50. Dos 50, 30 elegeram o Joaquim. Ele tomou posse entusiasmado e decidido.

Passado um ano, na Assembleia Geral ordinária só estavam 19 sócios e mesmo o António nunca mais passou da farmácia para a frente para se inteirar da vida da colectividade.

 No ano a seguir, o Joaquim preparou a prestação de contas para mais uma assembleia. Nem os membros dos órgãos sociais estavam presentes e, além do Joaquim, compareceu o Carlos antigo presidente da direção, o seu irmão Paulo que assumiu o Conselho Fiscal, mas que nunca olhou para as contas, a Carla única mulher da lista que nunca participou na vida da instituição, mas que namora com o Pedro que está sem emprego e é sobrinho do dono da farmácia.

O Joaquim, que apresentara bons resultados, desinteressou-se da coletividade. Anda ocupado a preparar a candidatura à Junta. É um presidente ausente e praticamente quem toma conta de tudo é o secretário Valdemar, que nunca se lhe conheceu emprego, trabalho, estudos ou méritos que não ser um aficionado da bola, presença assídua no café e opinião válida no Placard.

Passado um ano nova Assembleia. Compareceram 6 sócios dos 50 que votaram e, como dizem os estatutos, passada meia hora a reunião decorreu com o número de sócios presentes. A Associação está com uma grande dívida da qual 3 meses em atraso dos vencimentos do Pedro (entretanto contratado). Aprovaram as contas por unanimidade sem que ninguém tenha entendido o porquê de tão mau resultado ou mesmo o desaparecimento do Valdemar. Focaram-se em pedir apoios ao dono da Farmácia, que esta muito velhote e à Junta para resolver o problema na certeza que eles iriam ajudar.

O António, que está na Junta já há muitos anos votou contra o apoio a dar à Associação porque não se lhe conhece trabalho e influenciou todos os membros da Assembleia de Freguesia. O velho da Farmácia diz que não pode ajudar: está em obras em casa, contratou duas mulheres a dias porque ninguém da família quer saber dele. O Valdemar está em França segundo dizem fugido de uns fulanos do casino.

A Associação cessou atividade, o Pedro ficou sem emprego e com dois filhos menores da sua relação com a Carla que, entretanto, foi trabalhar para o Algarve deixando os filhos com a mãe do Pedro.

Os sócios chamam puta à Carla, ladrão ao Valdemar, acusam o Joaquim de ser um oportunista que só quer tacho, criticam o António porque não larga o poleiro, falam mal do avarento da farmácia que nem a família ajuda. Na conferência semanal no café dizem ser uma vergonha o fim da coletividade e onde aproveitam o facto do Pedro estar sempre bêbado para puxar por ele (nas costas tratam-no por cornudo e até dizem que é bem feito o que lhe aconteceu, mas que fez bem ter dado um arraial de porrada à rapariga porque ela já o traía cá com o Paulo).

Nenhum deles teve tempo para participar, votar ou ir a nenhuma Assembleia, mas, porque pagaram 3 euros da quota anual, todos sabem tudo sobre tudo e sobre todos e não se poupam a julgamentos. Entende-se a indignação pelo fim da instituição, a vergonha pelo trabalho deitado fora do fundador, que é avô do Pedro, e a falta que faz porque os agrafos não são os mesmos.

São unânimes numa coisa: a culpa é da puta, do vaidoso, do oportunista, do ladrão, do corno e da família dele… Eles seguem determinados em apontar culpados, envolvidos na questão, mas sem tempo para votar quanto mais para fazer melhor. Todos lamentam muito.

PS: Não percam tempo a pensar que me refiro subtilmente a alguém em particular, trata-se apenas de uma história escrita num gabinete em frente a um agrafador. Entendo que toda a gente já soube de histórias parecidas com esta, mas poucos tiveram tempo para votar quanto mais para fazer melhor.

Se fizermos uma extrapolação, é esse o único objectivo, ficam patentes os perigos de não votar, de não participar, de não incentivar e de deixar ao cuidado aos outros aquilo que é de todos nós!!! É mau viver num País onde mais de metade se demite da sua responsabilidade e fica no café à espera não sei muito bem de quê.»

 

Ao Sr. Comandante dos Bombeiros Voluntários de Salto, Hernâni Carvalho, meu mui estimado amigo, deixo aqui o meu público agradecimento pela partilha da sua reflexão na “Opinião Cruzeiro”.

 

Procurarei estar convosco daqui a uma semana, neste mesmo espaço. Até lá!

09/Outubro/2019

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