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A Organização Mundial de Saúde define a saúde como: “Um estado de completo bem-estar físico, mental e social, não se confinando tal à mera ausência de doença”.

Assim, surgiu também a definição de ambiente de trabalho saudável, da seguinte forma:

Ambiente de trabalho saudável é aquele em que os trabalhadores e lideranças contribuem para o uso de processos de melhoria contínua na protecção e promoção da segurança, saúde e bem-estar de todos os trabalhadores e para a sustentabilidade do ambiente de trabalho tendo em conta:

  1. As questões de segurança e saúde no ambiente físico de trabalho;
  2. As questões de segurança, saúde e bem-estar no ambiente psicossocial de trabalho, incluindo a organização do trabalho e a cultura da organização.
  3. Os recursos para a saúde pessoal no ambiente de trabalho; e
  4. O envolvimento da entidade empregadora na comunidade, para a melhoria da saúde dos trabalhadores, de suas famílias e outros membros dessa comunidade.

 

Verificamos que a compreensão do que é a saúde ocupacional partiu de um ponto onde quase exclusivamente se abordavam as questões relativas ao ambiente físico de trabalho, para o paradigma actual onde são incluídos factores psicossociais e de práticas de saúde individual. Percebe-se que o ambiente de trabalho cada vez mais é um espaço para promoção de saúde e para actividades preventivas de saúde. O objecto não visa o mero evitar doenças e acidentes de trabalho, mas actualmente foca-se no diagnóstico, na prevenção e na melhoria da saúde das pessoas.

 

O legislador, consciente do atraso, i.e., da paragem no tempo ocorrida em grande parte da chamada Administração Central – neste particular a minha experiência e conhecimento diz-me que a Administração Local está a anos-luz bem à frente -, através da Lei n.º 79/2019, de 2 de Setembro, veio introduzir no Regime Jurídico de Segurança e Saúde no Trabalho aplicado ao sector público, um conjunto de normas, das quais destaco a obrigatoriedade de os «empregadores públicos terem de implementar serviços de promoção de Segurança e Saúde no Trabalho até ao final de 2020».

 

Destaquei esta imposição porque ela revela dois factos:

  1. Primeiro os organismos públicos falham em toda a linha com as questões volvidas à Segurança e Saúde no Trabalho, pois não dispõem sequer de serviços dedicados à promoção de segurança e saúde.
  2. Segundo os serviços teimam em não considerar prioritário o tratamento destas questões, mesmo e apesar de já terem recebido instruções claras a coberto:

 

Aqui chegados e atendendo, por um lado ao carácter impositivo das acções a estabelecer e por outro os limites e objectivos detalhados pelo legislador importaria percorrer as etapas necessárias ao cumprimento de tamanho desiderato, a saúde de todos e naturalmente a saúde das organizações.

 

Como trabalhador em funções públicas e sindicalista que sou, reconheço que ainda me espanta quando ouço da boca de dirigentes, que “estas questões da Segurança e Saúde no Trabalho, não são prioritárias, pelo que terão de aguardar”. Não são prioritárias? Terão de aguardar?

 

Chegar-me-ia analisar estas posturas, olhando para a atitude típica dos “Velhos do Restelo”, contudo tudo isto me espanta mais quando estes dirigentes nos dizem que a lei não é para cumprir, ou quanto muito será para cumprir lá para as calendas. Isto choca de frente com a minha cultura funcional. Este desprezo pela lei só poderá ser alimentado pelo facto de que apesar de poderem perder as nomeações ou até de terem de assumir responsabilidades financeiras por prejuízos causados pelo incumprimento da lei – note-se que isto está legislado na Lei n.º 79/2019, de 2 de Setembro –, o facto é que nada lhes acontece.

 

Espantam-me ainda mais estas posturas quando revelam algo bem mais grave, o desprezo práctico pelo bem-estar de quem todos os dias contribui para o sucesso das organizações. Estas lideranças tomam as organizações como suas e os trabalhadores como seus servidores pessoais. Nitidamente, estão e são doentes e esquecem que as suas atitudes negativas são elas mesmo causadoras de doenças no ambiente de trabalho. Desmotivação, stress, angústia, problemas gástricos, absenteísmo são diagnósticos da medicina do trabalho amiúde associados à atitude da liderança na organização.

 

A este propósito, aos líderes deixo ainda uma reflexão sobre certas “qualidades” a evitar:

Arrogância: Um líder arrogante, nunca reconhece os seus erros, nem reconhece as qualidades de quem lidera, provocando a desmotivação. Sempre que um líder se coloca muito acima de seus liderados, desprezando suas ideias e seus talentos, inibe e impede o desenvolvimento da equipa. Não basta falar de trabalho em equipa, há que mobilizar a equipa para tal e essa forma de trabalho não se faz sob uma batuta modelar, mas por empowerment.

Agressividade: Comportamentos agressivos, mesmo que mascarados, tendem a acabar com a auto-estima dos liderados, provocando problemas físicos, psicológicos, quebra de desempenho individual, aumentando o absenteísmo e a rotatividade.

Desonestidade: É impossível manter a harmonia e a motivação da equipa sem honestidade. Um líder deve atrair seguidores. Para isso, precisa ser admirado e respeitado. Se possuir um carácter duvidoso, despertará a desconfiança. Por outro lado, a desonestidade bloqueia o crescimento e a produtividade, pois os liderados passam a realizar as suas tarefas sem procurar novas ideias e soluções, pois se o não fizerem arriscam o ralhete e o patrocínio da carreira do líder que por eles recolhe os méritos, mesmo os que não sejam os seus.

Irresponsabilidade: A falta de compromisso da liderança manifesta-se quando esta se preocupa mais com a procura de culpados do que com a procura de soluções para os problemas.

Bajulação: Qualquer liderança que goste e estimule a bajulação perante si, não passa de um mero intriguista e propagador de desmotivação.

Centralizador: As lideranças centralizadoras, que não delegam funções, nem sequer nas suas ausências, são fracas pois ao invés de dividir poder, lideram sobre o princípio da desconfiança e assim gasta a maior parte de seu tempo com tarefas que poderiam ser delegadas a outras pessoas. Tal, inibe o crescimento da equipa, causando desmotivação e falta de compromisso. Neste caso a sobrecarga de trabalho que a centralização impõe ao líder também prejudica a sua vida familiar e pessoal, bem como a sua saúde física e mental, acabando por se reflectir nos demais trabalhadores.

 

As lideranças têm papeis fulcrais a desempenhar na implementação de ambientes de trabalho saudáveis, estejam pois cientes disso, saibam liderar, respeitem as leis e as normas, mas acima de tudo tenham empatia para com os liderados, que imagine-se… até são seres humanos e têm os mesmos anseios, angústias, desejos e sentimentos que as lideranças.

 

Procurarei estar convosco daqui a uma semana, neste mesmo espaço. Até lá!

04/Setembro/2019

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