OPINIÃO CRUZEIRO: 26 É SUPERIOR A 3.800.000.000? SIM, É

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OPINIÃO CRUZEIRO: 26 É SUPERIOR A 3.800.000.000? SIM, É

Eu sei que é um título estranho mas é um facto real – segundo a OXFAM as 26 pessoas mais ricas do planeta têm tanta riqueza quanto os 3,8 biliões de pessoas mais pobres. Ou seja, mais de metade da Humanidade para apenas 26 pessoas! Para termos uma ideia mais elucidativa, eis um exemplo deste fosso de riqueza – a fortuna de Jeff Bezos, o dono da Amazon, é 100 vezes superior a todo o orçamento da saúde da Etiópia, um país com 105 milhões de habitantes. 

Se estes números não chocam, não sei o que chocará! 

Não sou grande fã de utopias de igualdade económica, em que todos têm direito à mesma fatia da riqueza. Soa-me a injustiça e a seguidismo de rebanho de ovelhas, ideia que temo e recuso. 

Aceito, contudo, algum nível de desigualdade na distribuição de riqueza desde que se respeitem princípios como a igualdade de oportunidades, a legalidade, a não discriminação seja em que base for e o respeito pelo direito a uma vida digna.  

O que não aceito é este extremar da desigualdade na distribuição da riqueza – ver uns com tanto e outros com tão pouco. Não aceito porque é bastante injusta, indicia ganância e egoísmo reprováveis, para além de ser ética e humanamente inaceitável. 

Não se pense que esta questão do crescente “abismo” entre os mais ricos e os mais pobres não é uma questão menor. Bem pelo contrário, esta é talvez a grande questão socioeconómica da atualidade a nível global. É este aumento da desigualdade que está na base de alguns dos grandes problemas que a Humanidade enfrenta como a pobreza, a exclusão social, os fluxos migratórios, outras desigualdades e discriminações sociais (como as baseadas na raça, na etnia ou no sexo), a instabilidade política e social e, até mesmo, as alterações climáticas. 

Em última instância, o agravamento desta já profunda desigualdade está a minar a própria Democracia. A emergência e a ascensão dos populismos pró-ditatoriais e de movimentos de contestação social na Europa provam-no. Aliás, numa obra publicada há já alguns anos e intitulada “O Futuro da Liberdade”, Fareed Zakaria mostrou pela análise histórica que um regime democrático só é estável quando o PIB per capita ultrapassa os seis mil dólares/ano. Ou seja, quando há fome e pobreza é a Democracia e os Direitos Humanos que também estão em perigo. 

Entre algumas outras medidas para atenuar a desigualdade, a OXFAM sugere que os mais ricos paguem apenas mais o,5% de impostos. Uma migalha. Tal seria, segundo a mesma organização, suficiente para educar 262 milhões de crianças e providenciar cuidados de saúde que salvariam a vida a 3,3 milhões de pessoas. 

Não me parece que seja pedir muito. Esta medida nunca seria um grave prejuízo para os mais abastados, tal como demostrou Warren Buffett, um dos homens mais ricos do mundo, quando questionado por ter assumido o compromisso de doar 50% da sua fortuna para causas filantrópicas. A sua resposta à jornalista foi clara: doar metade da sua fortuna não afetaria minimamente a sua qualidade de vida, nem a da sua família. Aliás, até acrescentou que lhe é relativamente fácil repor o dinheiro doado! 

Reduzir a desigualdade económica é necessário, é urgente e não é assim tão difícil. Bastará apenas alguma vontade política e a boa vontade pessoal de alguns dos mais abastados. 

Não sei se resolveríamos todos os problemas da Humanidade se se reduzisse um pouco esta agravada desigualdade mas tenho a certeza que todos teríamos um pouco mais de paz e seríamos um pouco mais felizes se recusássemos tanta desigualdade. 

Já agora, o relatório da OXFAM pode ser consultado no seguinte link: https://www.oxfam.org/en/research/public-good-or-private-wealth 

Até para a semana. Desfrutem de Odivelas!  

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