HISTÓRIAS NUMA VIDA «O Sonho e a Musica»

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Histórias numa vida

 

HISTÓRIAS NUMA VIDA

Por Eugénio Rietsch Monteiro

O sonho e a música *

Durante todo aquele dia deambulei pela cidade olhando para tudo e não vendo nada.
Não sabia o que se passava comigo; sentia qualquer coisa e não sabia explicar o quê. Uma coisa era certa, sentia-me extremamente sensível.

Emocionava-me ao ouvir uma criança chorar mas o mesmo sentia se a ouvisse rir; emocionava-me ao ver os pássaros, no jardim, dando de comer aos filhos; até um cão que, mesmo sem o chamar, se dirigiu a mim como se fosse velho amigo, me pôs a filosofar sobre a relação entre os seres humanos e os animais.

Mas continuei a caminhar pela minha bela cidade encontrando a cada passo coisas novas em que, por quase sempre passar de carro nunca tinha, verdadeiramente, reparado.
Numa esquina movimentada estava ao sol um ceguinho tocando acordeão ao mesmo tempo que pedia esmola. Mas não era um pedinte vulgar, era de facto um artista a quem ninguém prestava atenção, nem mesmo quando lhe deixavam algum óbolo.

E eu estive ali calado e silencioso apenas ouvindo a música que flutuava à minha volta como o rodopiar das folhas tocadas pelo vento outonal.

Não sabia o que se passava mas a música não me deixava.

O barulho dos autocarros, nos meus ouvidos, soava como uma sinfonia de Mahler, o ruído incessante das pessoas falando alto umas com as outras ou singularmente falando para um telefone portátil, aos meus ouvidos soava também como se fosse uma sonata de Beethoven.

Bizarra situação, como era isto possível?

Como era possível confundir isto?

Que inexplicável mecanismo fazia com que estes horríveis sons que atroavam os ares a todo o momento numa sinfonia de dissonâncias soassem na minha cabeça como uma ária de Bach?

Era a minha imaginação deturpada que, por qualquer razão que não sabia explicar, fazia vibrar no meu cérebro o desgosto de não ser o músico que sempre gostaria de ter sido e não fui?

Nesse dia estava anunciado para o Teatro de S. João um concerto de piano cujo intérprete era considerado um dos grandes vultos à escala mundial.

Era de origem eslava e até li algures que fora discípulo de Cláudio Arrau.

Como um autómato fui-me dirigindo, sem mesmo me dar conta disso, para a Praça da Batalha e, vendo-me de repente em face do teatro, resolvi ir assistir ao concerto.

Arranjei um bilhete numa extremidade da primeira fila.

Enquanto me dirigia para o lugar ouvi algumas vozes que me pareciam de alguém conhecido a saudar e às quais respondia com um vago aceno de cabeça acompanhado dum “grunhido” que nem eu sabia o que queria dizer.

Finalmente estava sentado… mas não via nada.

No meio da cena apenas me dava conta dum grande piano de concerto que ostentava de modo bem visível a inscrição: BOSENDORFER.

Subitamente, um ecoar de aplausos.

O artista entrava em cena e agradecia.

Foi-se fazendo silêncio e, quando foi totalmente restabelecido, o mestre arrancou com os primeiros compassos da Sonata Apassionata de Beethoven. Não sei porquê mas sem que tivesse havido a mais pequena alusão, vieram-me à memória as palavras de Romain Rolland na sua biografia do mestre de Bona.

“ Ele não é um pastor atrás do seu rebanho; ele é o touro que com a cabeça erguida, os cornos no ar e os cascos bem assentes no solo, segue à frente da manada.”

E deixei de estar neste mundo.

Música, só música, apenas música havia à minha volta. Imagens amarelas, verdes, vermelhas ou por vezes mais escuras, giravam à minha volta consoante os tempos e a maneira como o mestre interpretava. Eu, quase sem respirar, sentia-me a rodopiar no meio das notas, preza duma total agitação interior ao mesmo tempo que as minhas mãos e os meus dedos se agitavam febrilmente tentando acompanhar todo aquele ritmo.

Sentia-me inteiramente ausente.

Quando soaram os acordes finais desta magnifica sonata eu estava a chorar em silêncio como uma criança amedrontada e sentia-me desfalecer.

Subitamente voltou-me à memória a explicação de Romain Roland a respeito desta sonata. Agora Beethoven já não era o touro que guiava e conduzia a manada. Ele aqui era o mestre que perante o declínio do “eu” dizia:

– Levanta-te e luta. Segue o teu caminho.

E a música exprimia tudo isto dum modo alucinante.

Sem me dar conta de nada levantei-me e, devagar mas resolutamente, subi a escada e dirigi-me ao piano e, sem nada dizer, pus-me a tocar a sonata número 14, de Beethoven.

Rapidamente apareceram seguranças no palco para me retirarem mas como eu já tinha começado a tocar não sabiam bem o que fazer.

O mestre, que como é habitual se tinha retirado por momentos, entrou no palco dizendo aos seguranças e virado para o público: deixem-no tocar, pois poucas pessoas tocam assim.

E pôs-se a meu lado colocando a sua mão sobre o meu ombro.

Quando soaram os dois acordes finais do primeiro andamento fui parar ao meio do chão embrulhado num clamor imenso.

Estralejavam foguetes, ou pelo menos era o que me parecia, e havia grande agitação a meu lado.

Lentamente fui abrindo os olhos. O mestre lá estava, à boca do palco, agradecendo emocionado os entusiásticos aplausos dum teatro inteiro.

Levantei-me do lugar e de lágrimas nos olhos cuja origem nem sabia explicar, saí da sala e, como um autómato, dirigi-me para casa.

Sentia-me, ao mesmo tempo, nostálgico e contente.

Tivera um sonho mas nele fora o grande intérprete que sempre achei que poderia ter sido.
Será, realmente, o sonho a materialização dum desejo recalcado?

Pedrouços, 2 de Março de 2015

Nota: Imaginei este “sonho” ao ouvir uma magnífica Apassionata numa versão, não menos magnífica, de Alfred Brendel.

* Conto publicado no Livro “Histórias Numa Vida

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