HISTÓRIAS NUMA VIDA «Montanhismo reflexões»

TEMPO QUENTE E SECO ATÉ DIA 30 DE MAIO
27 Maio, 2020
NESTE DIA ACONTECEU NO ANO …
28 Maio, 2020

HISTÓRIAS NUMA VIDA «Montanhismo reflexões»

 

 

HISTÓRIAS NUMA VIDA 

Por Eugénio Rietsch Monteiro

Montanhismo reflexões

 

Há já bastantes anos, mesmo muitos, um grupo de jovens em que me encontrava inserido, contagiado pelo Dr. Jorge Santos, medico no Porto, com o vírus da prática do Montanhismo dedicou-se a este desporto sob a sua orientação e, após o seu desaparecimento, foram mantendo a chama deste magnífico desporto.

Devo dizer que nessa altura, já lá vão mais de cinquenta anos, éramos considerados “maluquinhos” e apodados das mais diversas classificações desde foragidos à justiça, evadidos de algum asilo psiquiátrico, romeiros, larápios, etc. etc.; havia de tudo um pouco consoante a disposição de quem nos via pois nessa altura eram raras as pessoas que podiam entender que um cidadão normal deixasse o conforto da sua casa para calcorrear montes, escalar montanhas houvesse frio ou calor, chuva ou neve, dormir abrigado junto a um penedo, algumas vezes com um plástico por cima a servir de teto, pois nas grandes marchas de montanha o peso das tendas que então havia e dos materiais de que necessitávamos para a escalada nos obrigava a fazer economias no peso.

Ainda me lembro que em qualquer vila ou aldeia do interior (e até algumas vezes no Porto) os comerciantes saíam à rua para nos ver passar…como se fôramos animais de feira.

Foram tempos heroicos para este desporto em Portugal. Não havia a mais pequena comodidade nem o menor apoio logístico; podíamos atravessar o Gerês e durante três dias não ver uma única pessoa. Tínhamos de improvisar e aguentar se queríamos chegar ao fim da jornada (e muitas vezes fomos forçados a desistir pois com a montanha não se brinca).

Tivemos algumas jornadas de grande aflição mas, chegados às nossas casas, já no dia seguinte estávamos a combinar a próxima atividade…

A grande força do montanhismo (ou alpinismo) é essencialmente porque não é um desporto de competição entre pessoas mas uma competição entre nós e a montanha onde se desenvolve um grande espírito de solidariedade e, sobretudo numa escalada, o espírito de entreajuda e até de sacrifício e onde não há lugar as vaidades tolas, pois ali não há espectadores e o sucesso (e por vezes até a vida de todos) depende do conjunto e não apenas de um.

Não era um desporto de elites mas também não era para todos pois exigia sacrifícios, por vezes bem penosos, que nem todos estavam dispostos a aguentar nas condições de então. Não havia nada, tínhamos de levar tudo às costas em sacos alpinos que chegavam a pesar mais de vinte quilogramas; não havia telemóveis nem gps, estávamos entregues a nós mesmos e dependíamos da aplicação daquilo que tínhamos aprendido para nos orientarmos e conseguir interpretar uma carta topográfica, quando a havia; hoje, umas botas para escalada pesam duzentos e cinquenta gramas e são muito mais eficientes do que as que usávamos que pesavam um quilo e meio e tanto serviam para escalar como para marchar; hoje, uma proteção contra a chuva pesa vinte gramas e é 100% eficaz, os nossos casacos (ainda não lhes chamávamos anoraques pois ainda não existiam por cá) eram de fazenda grossa ou de oleado, pesavam imenso e após umas horas de chuva duplicavam de peso.

Mas os “malucos” desta época, para nós gloriosa, não desistiam e continuavam a aproveitar todos os fins-de-semana que podiam para sair para a montanha: umas vezes para treinos nos arredores da cidade do Porto, outras com mais tempo pelo país fora com especial predileção pelas zonas montanhosas do norte e centro de Portugal, algumas delas ainda hoje praticamente desconhecidas.

Sessenta anos depois aonde estão e o que fazem esses “fanáticos”?

Pela lei inexorável da vida a maior parte desses pioneiros já não existe: O Dr. Jorge Santos. O pintor Amândio Silva, o poeta Egito Gonçalves (que era meu parceiro habitual de “cordada” junto com o José Rebelo), o Pereira da Costa, o Sampaio e Castro, o Rogério Caldeira mais o seu grupo do Académico, o Vilela, o António Carvalho e muitos cuja memória já se encontra esbatida na minha mente e que à sua maneira com maior ou menor intensidade foram mantendo viva a chama do Montanhismo em Portugal.

Esses tempos, que me atrevo a chamar de gloriosos, passaram.

O que mais me entristece hoje é verificar que já se organizam competições de montanhismo (agora chamadas de desportos radicais) em que os desportistas se enfrentam freneticamente para chegar primeiro ou mais depressa; o montanhismo, tal como o concebo, tem como filosofia a luta consigo mesmo, grande escola para aprendermos a dominar os nossos reflexos, a caldear a nossa vontade e dar-nos ou criar-nos uma mentalidade que nos permita enfrentar com confiança as dificuldades que inevitavelmente nos surgirão pela vida fora.

Comici, um legendário alpinista (criador da célebre descida de “rappel” à Comici) dizia sempre que o melhor não era nunca o mais rápido mas sim o mais seguro.

No montanhismo é fundamental que a mente comande a força.

Não sou saudosista; a vida tem de evoluir e temos de acompanhar esta evolução sob pena de nos tornarmos uns retrógrados enfadonhos; já nos basta a idade que inexoravelmente avança indiferente a culturas, ou quaisquer filosofias.

A vida atual tem coisas maravilhosas impensáveis ainda há poucas dúzias de anos.

Quantas vezes em noites enluaradas, deitados no chão olhando as estrelas, não divagávamos nós sobre aquilo que víamos?

Quantas vezes não nos interrogamos, ao contemplar uma Lua cheia iluminando a escuridão natural da montanha, se alguma vez chegaríamos a ir lá?

E do que haveria para além do que ainda víamos?

E aquela Vega bem lá no alto, ainda existiria ou já só víamos a luz que emitiu?

Hoje, respostas a questões como estas estão ao alcance dum clip num qualquer computador.

Penso, no entanto, que a preparação que temos nos obriga a discernir sobre muitas coisas não nos deixando escravizar pelos média que, através dos mais diversos meios , pretendem moldar os nossos cérebros orientando-nos para os interesses que defendem.

Para contrapor a este estado de coisas e para contrabalançar a ação desenfreada dos meios de propaganda que pretendem formatar-nos e escravizar-nos nas mais diversas áreas torna-se imprescindível desenvolver e disseminar a CULTURA por todas as formas e desde tenra idade.

Pedrouços, 23 de Setembro de 2019.

Os comentários estão fechados.