PORTUGUESES SUAVES
21 Abril, 2020
MILÃO ALARGA PASSEIOS PARA EVITAR CONTAMINAÇÃO POR COVID-19
21 Abril, 2020

GRANDE DEPRESSÃO E GRANDE CONFINAMENTO

 

OPINIÃO

por Augusto Costa

 

Soubemos há poucos dias das perspetivas económicas do FMI sobre a Economia Mundial para os próximos tempos no habitual Relatório da Primavera este ano denominado “The Great Lockdown” (O Grande Confinamento). Tempos difíceis nos esperam. Vejamos as perspetivas do (de)crescimento económico real do PIB (Produto Interno Bruto) previsto para este ano (2020):

  • Mundo = -3,0%
  • EUA = -5,9%
  • Zona Euro = -7,5%
  • China = +1,2%
  • Índia = +1,9%
  • Japão = -5,2%
  • Rússia = -5,5%
  • Brasil = -5,3 %
  • UK = -6,5%
    (…)
  • Portugal = -8,0%

(Apenas duas grandes economias com evolução positiva: China e Índia)

O Instituto Nacional de Estatística do Reino Unido prevê para este trimestre (2ºT do ano) uma queda homóloga (face ao mesmo trimestre do ano passado) de 35%. Significa isto que se continuar o confinamento então teremos um Armagedão económico nunca visto ou igual à “Grande Depressão” … dizem os mais entendidos nestas questões económicas.

Eu, que sou economista e desconfiado com tudo o que leio, fui investigar em que medida a “Grande Depressão” (1929/33) foi assim tão “grande” no Mundo. Descobri então uma coisa curiosa: A Grande Depressão, não foi a maior depressão no mundo do século XX e nem sequer foi a segunda maior depressão do século – houve duas piores.

Alguém nos tem andado a enganar. Os economistas também nos têm enganado porque esses têm a obrigação de ser mais cuidadosos na transmissão da informação económica. A Grande Depressão foi, efectivamente, a maior crise económica que os EUA conheceram no século XX, mas não a maior crise económica do Mundo. Um século de colonização económica e cultural americana convenceu as elites intelectuais, o povo em geral e os economistas em particular (o que é mais grave) de que um fenómeno local (dos EUA), que se espalhou é certo a outros países, foi a pior crise que o mundo atravessou no século passado. É FALSO!

A prova do que afirmo é fácil de fazer! Utilizando uma fonte muito credível para estas questões quantitativas de economia com dados de longo prazo sobre o PIB e a População mundial: Angus Maddison – (“Contours of the World Economy 1 – 2030 d.C.” – Informação estatística 2008. Ver links estatísticos no final*)

As conclusões são as seguintes baseadas nas estatísticas aí apresentadas e que coincidem grosso modo com as estatísticas anteriores de outras fontes já conhecidas sobre o fenómeno do crescimento económico a longo prazo e das crises cíclicas que afetam a economia:
Considerando a informação estatística para o PIB durante o período da denominada Grande Depressão (1929/1933), este caiu acumuladamente entre as referidas datas, (salvo indicação em contrário):

  • EUA cerca de 30%;
  • Alemanha cerca de 16%
  • Reino Unido cerca 6% (até 1931)
  • Itália cerca de 6% (até 1931)
  • URSS o PIB até cresceu (+14%), porque vigorava um regime de autocracia e o país estava isolado do mundo capitalista construindo o “socialismo” num só país sob a liderança de Estaline!
  • No resto da Ásia, só o Japão sofreu perdas assinaláveis no PIB (-8%) sendo que os outros países da zona ainda não integravam o sistema capitalista mundial.

Podemos concluir que, Grande Depressão, foi essencialmente um fenómeno americano, tendo depois tido a sua propagação pelo resto do mundo. Mas, com muito menor severidade do que aquela com que atingiu a sua origem.

Então que períodos foram mais depressivos para a Economia mundial como um todo para além da Grande Depressão?

Foram, naturalmente, as Guerras Mundiais, ou os períodos imediatamente a seguir a estas, excepto para os EUA, que aqui andaram em contra-ciclo por razões óbvias: não experimentaram o conflito no seu próprio território; saíram ilesos de ambas e aumentaram sobremaneira a sua capacidade produtiva com especial ênfase para o período durante a II Guerra Mundial.

Na I Guerra Mundial o PIB caiu acumuladamente:

  • 36% no caso da França entre 1913 e 1918;
  • 34% no caso da Alemanha entre 1913 e 1919;
  • 23% no caso do R. Unido entre 1919 e 1921. (Neste período, a Libra perdeu a liderança como moeda internacional para o USD; e assistiu-se à perda do papel hegemónico no comércio internacional do R. Unido para os EUA. A crise no R. Unido foi após a guerra pois durante a guerra também lucrou com ela como os EUA — devido à insularidade e pelo facto de não a ter experimentado no seu próprio território)
  • 60% na Rússia entre 1913 e 1921 – uma catástrofe agravada pela Revolução Bolchevique de 1917, primeiro e, depois, pela Guerra Civil que se seguiu que reduziu a escombros um país que estava a iniciar o desenvolvimento capitalista em 1913… Um pavor de miséria, fome e destruição!
  • 25% na Itália entre 1919 e 1921.
  • Apenas os EUA experimentaram um aumento do PIB no período da guerra (+15% entre 1914 e 1918).

Mas pior que tudo isto foi a II Guerra Mundial com o PIB a cair:

  • 53% no caso da França entre 1939 e 1944 não devido às destruições da Guerra que foi curta mas devido ao verdadeiro saque efetuado sobre a economia francesa pelos ocupantes Nazis em que chegaram a deportar franceses para a Alemanha para efetuar trabalho escravo nas indústrias militares e a confiscar produções para o esforço de guerra;
  • 66% para a Alemanha entre 1945 e 1946 (Colapso – Armagedão económico! A moeda passou a ser representada pelos maços de tabaco e cigarros americanos que então circulavam na Alemanha destruída). Até 1945 a produção de armamentos alemã conseguiu incrementar o PIB de mais de 10% face a 1939 pelo esforço de guerra – mau grado os bombardeamentos Aliados. Portanto, a guerra, em si, não produz queda automática do PIB como a experiência alemã demonstra.
  • 35% para a URSS durante o primeiro embate e período da ocupação Nazi em 1941/42 em que o país ficou desarticulado na sua parte Ocidental até Moscovo, tendo deslocalizado, então, indústrias inteiras para lá dos Urais onde continuou o esforço de guerra que permitiu vencer os Nazis;
  • 44% para a Itália entre 1941 e 1945;
  • 52% para o Japão entre 1944 e 1945 (Colapso económico do país)
  • 13% para o R. Unido, mas como na I Guerra Mundial o colapso só se deu depois da Guerra, entre 1944 e 1947.

Os EUA duplicaram o seu PIB entre 1939 e 1944 – com o esforço de guerra. Quando esta acabou entraram também em recessão (-25% de quebra do PIB entre 1945 e 1947). Curiosamente a Economia americana só reanimou de novo com a guerra da Coreia (1950/51).

Todos estes dados provam que a Guerra em si não trás necessariamente crise económica, especialmente quando a produção de armamentos atinge o seu auge. Os problemas começam depois!

Augusto Costa, 20 de Abril, 2020, Confinado…

*Links estatísticos:

https://en.wikipedia.org/wiki/Maddison_Project

https://www.rug.nl/ggdc/historicaldevelopment/maddison/releases/maddison-database-2010

Os comentários estão fechados.