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DO INTELECTO À INTUIÇÃO

 

 

OPINIÃO

DO INTELECTO À INTUIÇÃO

Por Fernando Ziegler Raimundo

 

Não existe nenhum caminho lógico para a descoberta das leis do Universo – o único caminho é a intuição’.

Albert Einstein

Até na imprensa generalista foi dado especial destaque à notícia da detecção das ondas gravitacionais, previstas por Einstein há cerca de cem anos (1915). A confirmar-se o teor da notícia, poderá ser esta a terceira grande descoberta científica do século, após a sequenciação do genoma humano, em 2003, e a descoberta da partícula de Higgs, em 2012.

Para além das congeminações matemáticas que levaram o cientista a ‘desconfiar’ da existência desse fenómeno, é-lhe reconhecida, desde sempre, uma enorme intuição.

E o que é a intuição?

Assim como o reino mineral está a aprender a reagir, o vegetal a sentir e o animal a pensar, assim está o homem aprendendo a intuir. É bem verdade que em nenhum dos quatro reinos visíveis da Natureza, todos os seus intervenientes se encontram ao mesmo nível evolutivo.

Até na matéria aparentemente ‘morta’ existe uma vida vibrante, um pulsar, já que quando nos reportamos aos mundos atómico e subatómico, deparamos com electrões movendo-se a velocidades da ordem dos 60.000 kms/segundo.

Duma forma simplificada, constatamos existirem no reino mineral formações de tipo mais grosseiro, amorfas, mas também minerais que cristalizam obedecendo a matrizes e eixos geradores de formas geométricas sólidas, com inúmeras configurações que deixam transparecer um relevante e intrigante exercício conceptual.

Também no reino vegetal nos deparamos com formas muito embrionárias de líquenes, mas igualmente com espécies cujo desenvolvimento se aproxima já dos atributos próprios dos animais, com ténues predisposições instintivas e de movimento, existindo até plantas ‘carnívoras’.

No reino animal existem formas rudimentares de vida, quase vegetal, mas também espécies muito evoluídas cujo paradigma máximo se fixa nalguns mamíferos domesticados (e não só, como no caso dos golfinhos) cujo contacto com os humanos lhes confere uma ‘quase inteligência’ por indução, para além de um instintivo sentido de afectividade e (canina) fidelidade que não encontramos sequer nalguns humanos.

Já na humanidade nos confrontamos com pessoas de muito baixa ‘extracção’, independentemente do aspecto visual com que se apresentem, e outras com qualidades reveladoras de grande civilidade e generosidade. Porque como sabemos, e tal como nos outros reinos referidos, também a humanidade não está toda ao mesmo nível  emocional, nem intelectual, nem espiritual, segundo nos revelam periodicamente as estatísticas que medem as ‘aquisições’/parâmetros civilizacionais, tenham elas o significado que tiverem, em função dos modelos de sociedade ou da falta deles.

A teósofa, oradora e activista dos direitos das mulheres Annie Besant (Londres, 1847- Adyar/Índia, 1933) definiu o Homem como ‘o ser onde a matéria mais grosseira e o espírito mais evoluído se unem através da mente’. E é de facto a existência da mente (de que o cérebro parece ser apenas um instrumento) que distingue os humanos dos animais.

Diz-se comummente que o ser humano é um animal racional, o que, não sendo mentira, não traduz inteiramente a verdade. Do mesmo modo que um animal não é um vegetal provido de sensações, desejos e movimento, nem um vegetal é um mineral com vitalidade.

Obviamente que sendo o ser humano um corolário evolutivo dos reinos precedentes, possui genericamente as dimensões inerentes aos seres que neles habitam, embora com doseamentos diversos, de que a natureza instintiva é um resquício. A existência da mente, que lhe proporciona um pensamento concreto, mas também a capacidade de formular abstracções, gera uma mudança radical com o mundo animal, a qual se reflecte no livre-arbítrio (enquanto tiver alternativas/hipóteses de escolha) e na capacidade em poder conceber algo de inteiramente novo, sem estar subordinado a qualquer programação (epigénese). Embora saibamos da existência de vários tipos de inteligência, de que a emocional tem sido, desde há algum tempo, a mais badalada.

E é também no reino humano que a predisposição para a tomada de uma consciência espiritual se evidencia, até se atingir o propósito da autoconsciência:

– a consciência dorme profundamente no mineral (… dorme que nem uma pedra!), sonha no vegetal, agita-se no animal e desperta no homem.

À medida que, de reino para reino, a Natureza vai apetrechando as formas com que se manifesta de instrumentos mais adequados à exteriorização da Vida, assim constatamos existir uma evolução significativa entre os corpos dos animais superiores (mamíferos) e os dos humanos, sobretudo a nível cerebral.

Considera-se que apenas cerca de 15% das potencialidades cerebrais do ser humano estão aproveitadas, mas existem partes do cérebro que poderão ser activadas ou reactivadas de forma a poderem reproduzir ou permitir outros ‘alcances’ na expansão da consciência. Pouco se sabe, por exemplo, acerca das enormes potencialidades de algumas glândulas de secreção interna, como a epífise (pineal) e a hipófise (corpo pituitário), mas a Sabedoria Antiga atribui-lhes uma importância relevante em períodos remotos da evolução humana, reservando-lhes ainda enormes funções para períodos vindouros.

Actualmente já muitas pessoas possuem certas capacidades com as quais, global e imediatamente, apreendem a realidade (a sensível e a essencial) sem ter de utilizar os mecanismos da mente concreta – tal como a análise, a comparação, a indução – para conhecer (nascer com/connaître) ou apreender as verdadeiras dimensões de um fenómeno ou de um acontecimento. Quando utilizam a mente é para explicar/traduzir o seu ‘conhecimento’ a terceiros.

Para elas não se torna necessária a separação entre o sujeito que observa e o objecto que é observado, existindo uma apreensão integral e imediata da realidade – alargada e abrangente – sem preconceitos nem generalizações redutoras. Uma compreensão holística, como em certos círculos está na moda dizer.

Será uma compreensão ‘artística’ da realidade na qual se é, em simultâneo, actor interveniente e espectador, sem barreiras.

Mas não se confunda intuição com instinto, resultando este da dimensão animal patente no ser humano, tal como o instinto de sobrevivência (pessoal e de grupo), o de defesa, o de posse, o maternal, etc…, que se revelam através de uma  mente instintiva. Mas que não é intuição.

O instinto resulta de uma aquisição do passado, talvez de uma memória recôndita  importada num qualquer inconsciente coletivo.

A intuição simplesmente aparece, muitas vezes sem esforço, sem intenção, mas que poderá ter resultado de aturados esforços na procura de algo insondável ou que possa representar um desafio.

O conceito de intuição poderá estar relacionado com as noções de pressentimento (pré-sentimento), sendo que este é mais do domínio das sensações (feelings), ou de um estado de alma que se possa revelar inspirador (insight), sendo estes ingredientes muitas vezes potenciadores de um qualquer fenómeno artístico.

Muitas vezes os pressentimentos estabelecem-se algures entre os estados de intuição e de premonição, traduzindo esta uma antecipação de algo que poderá vir a acontecer.

Mas a intuição, no quadro do desenvolvimento, aptidões e competências que o espírito humano vai adquirindo, tal como contextualizámos no princípio desta abordagem, poderá tornar-se numa capacidade comum e extensiva a toda a humanidade, no futuro.

Por enquanto será o privilégio de alguns que se antecipam na senda evolutiva e que se tem manifestado de uma forma mais explícita nos artistas, filósofos, pensadores e cientistas que, prescutando uma verosímilhança ou plausibilidade nos asssuntos que investigam, são instigados a produzir e testar hipóteses que poderão transformar um problema num teorema. O problema transporta um desafio, o teorema define uma solução científica.

E concluo este pequeno ensaio com um soneto de Camões em que o último terceto é revelador dos sentimentos que trespassam os conceitos aqui abordados:

 

Busque Amor novas artes, novo engenho,
para matar-me, e novas esquivanças;
que não pode tirar me as esperanças,
que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.

Que dias há que n’alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e dói não sei porquê.

 

Luís de Camões Camões, L. V. de. Sonetos. Lisboa: Livraria Clássica Editora. 1961.

 

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