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AUTOCONHECIMENTO

Clarisse Lispector

 

 

OPINIÃO

AUTOCONHECIMENTO

Por Fernando Ziegler Raimundo

 

 

 

“Eu escrevo para nada e para ninguém. Se alguém me ler será por conta
 própria e auto-risco. Eu não faço literatura: eu apenas vivo ao correr do
 tempo. O resultado fatal de eu viver é o ato de escrever. Há tantos anos
 me perdi de vista que hesito em procurar me encontrar. Estou com medo
 de começar. Existir me dá às vezes tal taquicardia. Eu tenho tanto medo de
 ser eu. Sou tão perigoso. Me deram um nome e me alienaram de mim.”

 Clarice Lispector, in ‘Um sopro de vida’

 

Poderemos considerar o autoconhecimento como o corolário da nossa existência, enquanto humanidade, quer nos assumamos como seres espirituais a viver uma experiência humana, quer como seres materiais com a capacidade de formular ou vivenciar experiências espirituais. Ou ainda como incógnitas de uma complexa equação cósmica sempre em actualização, fazendo parte de uma qualquer onda ou partícula vibrante com que algumas correntes científicas nos presumem identificar.

Em qualquer dos casos é o ser humano que está no centro, já Protágoras o afirmava: “o homem é a medida de todas as coisas”.

Mas a tentativa de compreendermos o processo que poderá conduzir ao autoconhecimento – a exacta consciência de si próprio – requer, ou pelo menos aconselha, que abordemos primeiro a problemática do conhecimento.

No plano físico em que vivemos – aquele que realmente agora nos interessa por ser nele que adquirimos todo o tipo de experiências captadas pelos sentidos físicos, independentemente da origem da vitalidade, das emoções, dos pensamentos, pressentimentos e intuições –, o conhecimento é considerado como indissociável do poder, nas suas dimensões ideológica, política, económica, financeira, militar ou religiosa, utilizando este a comunicação para tentar impôr uma ordem cultural através de processos de formatação. Para tal, poderá o poder recorrer a metodologias de massificação e manipulação que utilizem o medo e a ignorância para se impôr sobre as prerrogativas de liberdade que deveriam assistir a qualquer ser humano. Assim aconteceu no Ocidente quando a religião era dominante, continuando a suceder nos regimes teocráticos onde ela ainda predomina.

As muitas incertezas que permanentemente, e desde sempre, povoam o imaginário humano promovem o sistemático recurso a muletas que vão desde a tradição, às lendas e mitos, à religião e à ciência com todas as suas tecnologias. Mas a ciência também poderá ser contraditória, embora como disse Bertrand Russel “…sem nunca ser totalmente exacta também nunca será totalmente errada”.

Sendo curioso que também existe essa prerrogativa e abusiva ‘tentação’ manipulatória relativamente à instrumentalização da Ciência como pretexto para instigar o medo nos regimes ditos democráticos. E a actual crise demonstra-o à saciedade quando se tenta condicionar, por vezes de forma excessiva, certas liberdades fundamentais com objectivos inconfessáveis. É que a Verdade parece permanentemente escapar aos louváveis esforços da Ciência. Mas será que as comissões científicas de que os governos se fazem rodear para tomar decisões, alegando a fundamentação técnica possível, em cada altura, são suficientes para nos tranquilizar? A cada vez mais exigente opinião pública (pelo menos a mais esclarecida) não tolera contradições no que toca à informação. Exige perfeição, mas estará a Ciência habilitada a resolver essas carências, revelando a verdade, pelo menos aquela verdade possível? Parece que não. Até porque a lentidão dos processos científicos não é compaginável com a urgência da tomada de decisões políticas a curto prazo. Ainda porque os desafios com que a Ciência hoje se debate redundam muitas vezes na necessidade de aceitar contradições desde que novos desafios surgiram quando se começou a questionar certos princípios da física clássica que originaram novas realidades, relacionando por exemplo a gravidade enquanto curvatura do espaço-tempo, a dualidade onda-partícula, os princípios da incerteza e da indeterminação. E lá nos teremos de render à política, ‘a mais nobre de todas as artes’.

A comunicação assume-se, assim, como um dos instrumentos fundamentais utilizados pelo poder para controlar a qualidade do fluxo informativo. À sociedade do conhecimento parece ter sucedido a sociedade da comunicação.

A apropriação do conhecimento pelo poder tem suscitado enorme controvérsia e perplexidade, sendo, geralmente, a comunicação utilizada como o instrumento que permite controlar a qualidade do fluxo informativo. Numa perspectiva sociológica subjaz quase sempre a identificação de uma dimensão manipuladora nesse processo de transmissão do conhecimento.

E como se disse, ela é tão eficiente e explícita nos regimes totalitários e autoritários quanto nos regimes democráticos, embora nos primeiros se recorra a processos mais explícitos e primários, geralmente instrumentalizando o medo social, enquanto nos segundos, embora o medo continue presente, são subliminarmente utilizados métodos que obedecem a figurinos da mais maquiavélica subtileza e sofisticada elaboração conceptual. Aqui recorre-se sistematicamente a uma reificação, a uma deturpação e esvaziamento dos sistemas de conhecimento da sua matriz essencial, concretizada por determinados agentes do poder – na sua expressão económica, política, religiosa, comunicacional, militar e outras – que intencionalmente contribuem para instaurar ambientes que conduzem a situações de facto consumado, suportadas pela aceitação generalizada das opiniões públicas, depois de suficientemente ‘anestesiadas’.

Recordemo-nos de todo o processo ardiloso para se justificar a 2ª invasão do Iraque.

Trata-se, no fundo, de exercer o poder através da deturpação da informação, recorrendo a uma verdadeira “engenharia do consenso social” (Fernando Nogueira Dias, 2017, in ‘A Engenharia do Consenso Social’, Lisboa, Chiado Editora).

“A distorção, a descontextualização, o exagero, a omissão, a fusão de temas e de personagens, a desqualificação, a desconfirmação, a engenharia de factos sociais infundados, o excesso de informação que distrai ou provoca o ruído, o levantamento de suspeitas ou a difamação em momentos precisos e outros tantos mecanismos do género são presentemente o paradigma que norteia o quotidiano das sociedades modernas” (Fernando Nogueira Dias, 2013, in ‘Os Sistemas de Conhecimento Patológico e a nova Ordem’, Lisboa, Instituto Piaget).

Ou seja, na sociedade da comunicação as informações tendem a tornar superficiais os conhecimentos.

Assistimos, na Natureza, a uma complexificação do processo comunicacional à medida que a onda de vida vai evoluindo de reino para reino, apetrechando as formas que neles habitam de instrumentos mais adequados que culminam, no ser humano, na construção de um cérebro para processar pensamentos e de uma laringe para os transmitir. Nas formas em que a vida anima seres cuja constituição física é ainda muito elementar – e que na prática, mais do que viverem, são vividos – assiste-se a um predomínio do condicionamento genético sobre os legados da memória, da aprendizagem e da comunicação simbólica. Está provado que a memória retida por um peixe (em média) não sobrevive para lá de uns escassos três segundos.

Já a complexificação do cérebro humano evoluiu ao ponto de assegurar certas capacidades e competências que permitem manifestar as prerrogativas do livre-arbítrio, da inventiva e da epigénese, podendo criar algo de novo sem qualquer condicionamento que não seja o cultural. E todos estes ingredientes contribuem para uma enorme complexidade relacional.

Efectivamente, o contexto relacional é todo o ambiente no qual e pelo qual a comunicação se processa e, concomitantemente, é nele que se estabelecem as teias inerentes ao exercício do poder e ao processamento dos conteúdos que constituem o conhecimento.

Quando as instâncias do poder representativo dos diversos interesses são mais centralizadas e os meios tecnológicos para a divulgação da informação e do conhecimento são escassos e controlados, assiste-se a formas de imposição dos quadros legislativos centrados sobretudo na repressão física exercida pelo aparelho de Estado. Mas hoje constata-se uma fragmentação e desconcentração do poder, e também do conhecimento, repartindo-se por inúmeras entidades e organizações, com livre acesso aos órgãos de informação e a tecnologias avançadas. E este facto permite a substituição dos agentes convencionais de representação dos diversos interesses – quer estejam ou não legitimados – tornando-se então mais difícil controlar e abafar os meios de divulgação da informação, sem se abdicar da liberdade.

Cada vez mais vivemos num mundo multipolar no qual os preconceitos e estereótipos baseados em interpretações dualistas se têm revelado insuficientes para analisar, diagnosticar e propor soluções alternativas aos enormes desafios com que a humanidade se confronta, sobretudo num momento de aceleradas mudanças a todos os níveis. O mundo a preto e branco acabou e esgotaram-se as visões baseadas exclusivamente na economia, na geopolítica ou em princípios de matriz religiosa. Exige-se uma mundividência e cosmogonia assente numa nova ética que sirva de contraponto à nova ordem em formação, que tudo tende a uniformizar e controlar. Reclama-se uma ecologia que crie alicerces no pensamento e na mente dos indivíduos, a par das preocupações meramente ambientais, igualmente importantes. Mas sem existir um esforço individual de aperfeiçoamento e auto-superação, começando por pequenas práticas que contrariem as rotinas unicamente alicerçadas no bem estar material e no egoísmo, dificilmente se conseguirá expandir uma nova ordem assente mais nos valores e nos princípios do que exclusivamente nos interesses.

A humanidade parece preparar-se para um estágio superior de desenvolvimento, vivendo um processo lento pleno de contradições nas quais o coletivo e o individual interagem e mutuamente se influenciam, muito devido à rápida disseminação do conhecimento ‘deturpado’ pela superficialidade com que é apresentado pelos órgãos de informação oficial e, sobretudo, nas redes sociais.

Mas não nos iludamos quanto à generosidade que possa advir de uma nova ordem mundial, porquanto esta só poderá vir a assumir-se de forma livre quando um número suficiente de indivíduos conseguir, por si só, corresponder a essa exigência ética de responsabilidade que possa vir a ser vertida no coletivo. Até lá, as instâncias do poder encarregar-se-ão de utilizar os meios tecnológicos disponíveis para, com bases científicas credíveis, justificarem as tomadas de decisão mais arbitrárias recorrendo às enormes potencialidades da inteligência artificial e dos meios que tornarão a robótica ultrapassada, à semelhança do restrito período de utilização do ‘fax’, quando antecedeu a tecnologia digital.

 

 

O desenvolvimento das ciências neurológicas, da psiquiatria, da psicologia, e ultimamente da psicologia social, tem contribuido para um enorme impulso na tentativa de sondar os mistérios da mente e, como tal, da natureza humana. Numa óptica transdisciplinar, o concurso de todas estas ‘ciências’ será sempre insuficiente para atingir esse desiderato, pois o todo será sempre maior que a soma das partes. Mas tratando-se de uma tentativa, existirão sempre aproximações credíveis.

Se numa sociedade da comunicação como a nossa as informações tendem a tornar superficiais os conhecimentos, que dizer do autoconhecimento?

Poder-se-á dizer que o autoconhecimento é um conhecimento subjectivo, resultante de uma elaboração individual, independentemente de ser ou não partilhado com alguém, como contraponto a um conhecimento objectivo que, não pertencendo a um único indivíduo, é um conhecimento de cariz social?

Não será esse o sentido do autoconhecimento, enquanto avaliação de si próprio, o qual pressupõe um distanciamento, isenção e espírito crítico que nada têm a ver com o conhecimento subjectivo que permite formular uma opinião própria acerca de determinado assunto.

Os rostos meio tapados a que a actual pandemia obriga são um apelo para aprendermos a reconhecer a essência do outro, dizem alguns. E um pretexto que nos oferece uma oportunidade para olharmos mais para dentro e para travarmos o frenesim em que se tem tornado a nossa civilização, que nos rouba o tempo para olharmos mais para nós próprios. Mas sendo nós também animais de hábitos, já nem assim o conseguiremos fazer, ainda que com mais tempo disponível. Congratulavam-se alguns que com o confinamento e distanciamento social, teríamos mais tempo para a família, ficando forçadamente em casa e funcionando em teletrabalho. Mas depressa se sobrepuseram uma série de questões e desafios que contrariaram aquele argumento.

Uma das questões e desafios que se nos colocam ao pretendermos trilhar a senda do autoconhecimento prende-se com a coragem em admitirmos algumas das nossas humanas debilidades, muitas vezes resultantes dos rótulos que nos são impostos e que nós assumimos e até gostamos de partilhar, seja por vaidade, seja para disfarçar incompetências, seja para nos vitimizarmos perante os outros.

Desde tenra idade que a envolvente social e todo o “setting” em que nos enquadramos

nos condicionam através de uma moral que, embora apresentando aspectos necessários à vivência em comunidade, também nos cerceia dimensões criativas de

espontaneidade que vamos interiorizando e, muitas vezes, nos inibem de identificar e reconhecer a essência do que somos, induzindo-nos a uma auto-classificação deturpada da nossa personalidade, ora subestimando-nos e vitimizando-nos, ora sobrevalorizando-nos de forma narcísica.

Uma das dificuldades no processo de abordagem tendente a uma reflexão crítica e isenta sobre as motivações que induzem cada indivíduo a agir de determinada forma prende-se com a exigência que implica um desdobramento de uma parte de si que se proponha a observar a outra parte.

Mas como se pode exigir de alguém que se entenda com o centro de si próprio, a alienar essa prorrogativa tão entranhada por tantos anos de práticas rotineiras, de procedimentos socialmente estabelecidos e impostos, de hábitos tão fortemente enraizados e sempre em actualização?

Como se poderá convidar alguém a abdicar de um modo de sentir que, não sendo genuinamente seu, é assumido como tal, na maioria das vezes de forma conformada ou inconsciente, mas noutras vezes causando enorme sofrimento, desconforto e ansiedade?

Será por um esforço de vontade?

Estas e outras questões, que alegadamente procuram identificar os contornos de um certo mal estar pessoal que acaba por ser vertido numa dimensão social, têm suscitado debates intensos, sendo obviamente o dia-a-dia de quem profissionalmente convive com as problemáticas da saúde mental.

Serão particularmente vantajosas e indicadas as terapias em grupo, quando supervisionadas por terapeutas competentes, na qual cada interveniente, expondo-se perante os demais se vai apercebendo, como num espelho, das suas limitações estruturais mas também das suas potencialidades abafadas pelos condicionalismos e experiências vividas desde tenra idade: o meio que o viu nascer, as figuras parentais, os professores e colegas, as situações traumáticas por que passou, ou que terá provocado a outros, enfim, toda a série de pequenas efemérides e estórias que constituem a sua história.

Esta dinâmica inerente ao funcionamento dos grupos, sendo extremamente importante, não dispensará, porém, a genuína vontade em descobrir-se, obrigando a um trabalho árduo, quase sempre demorado, de aturada maturação retrospectiva e introspectiva, tantas vezes abafada pela memória. Tantas vezes acompanhada de negação, de incapacidade em ver o óbvio, até que o óbvio seja internalizado e assumido como ‘lei’.

O autoconhecimento inscreve-se assim no culminar de um percurso infindável que nos convoca para um persistente discernimento, habilitando-nos a transformar o conhecimento em sabedoria!

Que as nossas capacidades latentes e adormecidas, inscritas no nosso ADN e filtradas pelo meio social, possam ser reavaliadas e transformadas em poderes dinâmicos que nos iluminem a razão, confortem os estados emocionais e nos inspirem para momentos de intenso prazer e até… de alguma felicidade, seja lá isso o que for.

 

 

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