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ARQUITECTURA E COVID 19

 

OPINIÃO

ARQUITECTURA E COVID 19

Um convite à reflexão

 Por Fernando Ziegler Raimundo

Lisboa ainda

Lisboa não tem beijos nem abraços

não tem risos nem esplanadas

não tem passos

nem raparigas e rapazes de mãos dadas

tem praças cheias de ninguém

ainda tem sol mas não tem

nem gaivota de Amália nem canoa

sem restaurantes, sem bares nem cinemas

ainda é fado, ainda é poemas

fechada dentro de si mesma ainda é Lisboa

cidade aberta

ainda é Lisboa de Pessoa alegre e triste

e em cada rua deserta

ainda resiste

Manuel Alegre, 20 de Março de 2020

 

  • O espaço é a matéria prima que os arquitectos e urbanistas utilizam no seu processo

criativo, os primeiros para conceber edifícios, os segundos quando intervêm a nível do planeamento regional ou urbano.  E tal como dizia Henry Lefébvre (filósofo e sociólogo francês, 1901-1991), o espaço é uma entidade permissiva.

O espaço que dá forma e sentido  às nossas cidades, vilas e aldeias, mas também às nossas paisagens – rurais, metropolitanas ou urbanas – e aos edifícios e vias de circulação que os constituem, é o nosso principal interlocutor que, tal como numa linguagem escrita, discursa pela História. Pois as cidades são organismos que nascem, vivem e respiram, acordam e dormem, mas que também morrem. Há cidades fantasmas e cidades que, como Nova Iorque, nunca dormem, apenas repousam umas horas…

O espaço, confinado ou não, ultrapassa a capacidade que as três dimensões volumétricas lhe sugerem porque, para além destas,  possui uma quarta dimensão temporal que lhe é conferida pelo movimento e ainda um número infinito de dimensões psicológicas e psicossociológicas, a que lhe não são estranhas as configurações emocionais marcadas pelos acontecimentos históricos e efemérides mais relevantes.

O ADN do espaço que os projetistas trabalham radica nas suas pré-existências (raízes) – referências físicas, arqueológicas, histórico-culturais  ou simbólicas –  cujo significado importa entender para que nele se vislumbre um sentido nas intervenções, permitindo-lhes estabelecer uma integração no local, nem que seja no deserto. Porque mesmo no deserto há pontos cardeais, céu, sol, lua, nuvens e estrelas, poderá existir sombra se houver luz e dunas, poder-se-á encontrar um qualquer elemento de referência, nem que seja um sentimento solitário. A interpretação do local assume-se, assim, como a primeira preocupação a atender para o arquitecto ou urbanista que projecta, muito antes de um programa que sirva de suporte a uma encomenda que traz sempre consigo uma finalidade prática a ser concretizada e que se irá traduzir num espaço mais ou menos encerrado, que muitas vezes se pretende protector ou de recolhimento. Um espaço que satisfaça as necessidades inerentes a uma dada exigência funcional, mas que cunhe a envolvente, quer seja pela continuidade, quer seja através da ruptura de um discurso urbano ou paisagístico pré-existente.

E a arquitectura poderá, muitas vezes, ser também uma escultura (caso da Gare do Oriente, entre outros).

Na verdade, muitas das intervenções que povoam os meios urbanos e rurais não chegam a possuir o estatuto de peça arquitetónica, porque os condicionalismos de vária ordem que se entrecruzam e intrometem no processo criativo – desde alguma legislação desadequada e ultrapassada de quem avalia e aprova, até ás carências financeiras e culturais de quem encomenda.

E é então que à arquitectura se sobrepõe a construção, sendo que esta não deverá ser senão um instrumento daquela.

E hoje, face à quase inesgotável oferta de materiais e soluções que povoam o processo construtivo, por um lado, e à multiplicidade de aspectos sócio-espaciais que constituem o processo criativo, por outro, só com uma equipa transdisciplinar se consegue encontrar as melhores soluções para um bom projecto, seja à escala do edifício, da cidade, da área metropolitana ou de qualquer espaço territorial de maior dimensão.

  • A arquitectura, enquanto actividade central mais importante ao nível da construção da imagem, tal como o cinema e as artes cénicas o são a outro nível, deve contribuir de forma definitiva para o estabelecimento de uma determinada qualidade de vida e bem estar social.

Este desiderato requer uma auscultação e participação periódicas, senão permanentes, entre os

os cidadãos utilizadores do espaço público, que cada vez mais reponha a política no centro da acepção etimológica do termo – a organização da polis.

Sem esta prerrogativa nunca existirá democracia participativa.

Porque são as interações sociais decorrentes de uma certa organização da polis que conduzem a uma determinada interpretação ética que, traduzindo um sentido de ‘justiça urbana’, se prolonga e materializa numa determinada estética. E que poderá contribuir para um certo avanço civilizacional.

Porque, lá está, o espaço é uma entidade permissiva.

As cidades são, assim, os centros privilegiados que induzem à convivialidade, pois nelas se concentram as mais diversas actividades, articuladas num sistema de relações de proximidade.

À medida que as cidades vão crescendo, os imperativos civilizacionais tentam corresponder às exigências de higiene e conforto e ainda à superação das barreiras arquitetónicas para os cidadãos com mobilidade condicionada. Constroem-se avenidas mais largas, arejadas e arborizadas, com sistemas de saneamento e recolha de lixo mais eficientes. A escala do peão que utilizava as estreitas ruelas e becos dos núcleos habitacionais mais antigos é alargada para a escala do automóvel e dos transportes públicos, o que também terá permitido o mais fácil esmagamento das revoltas populares em períodos de maior convulsão social, com o recurso à artilharia, argumento este bem acolhido pela retórica marxista.

A liberdade de movimentos do peão, enquanto esta não for condicionada, ainda é a que melhor permite desfrutar do espaço público, seja nos centros históricos de escala reduzida, seja nas grandes avenidas e espaços abertos, porque nestes, desenhados para o automóvel, elétricos e autocarros, existem muitas vezes sentidos de circulação obrigatórios e/ou proibidos que muito limitam a percepção do espaço urbano, na sua totalidade, induzindo-nos a identificações ‘viciadas’ com trechos que nos reforçam sentimentos diferentes dos demais cidadãos.

E ainda existem os cortes abruptos entre contextos urbanos tão diferenciados, que nós experimentamos quando utilizamos o metro subterrâneo.

A substituição da escala do peão – que caracteriza as conhecidas ruas dos bairros populares que constituem os centros históricos das nossas cidades – pela escala do automóvel (público ou privado) motivou um distanciamento do espaço que foi compensada pelo encurtamento do tempo. Foi portanto a velocidade, enquanto função do tempo, que contribuiu para acelerar a dinâmica e a vitalidade dos espaços urbanos, a dispersão das actividades que antes se concentravam no “centro”. Quando o centro era mesmo o único polarizador das actividades políticas, dos serviços, do comércio e do lazer. Desde há muito que esta lógica mudou e hoje qualquer cidade de média dimensão possui vários centros. Embora se continue a chamar centro ao espaço matricial que (tradicionalmente) a originou, no fundo o seu centro histórico.

  • É sobretudo em períodos de pandemias ou catástrofes naturais que muitas vezes as precedem, como no caso do terramoto de 1755, em Lisboa, que o pretexto para uma reconfiguração do espaço urbano encontra uma justificação fundamentada na necessidade, mas também na oportunidade, para reforçar um sentimento de afirmação do poder:

a capital do Império carecia de alguma monumentalidade que fosse compaginável com a ostentação da realeza e da aristocracia reinantes. E foi neste contexto que Lisboa se começou a modernizar, tendo sido adquiridos  novos hábitos de vida e de consumo, sobretudo por uma burguesia florescente e endinheirada com os negócios alavancados pelo comércio de mercadorias, entre as quais figuravam os escravos. A par de uma enorme miséria vivida por grandes camadas da população, os contrastes eram por demais gritantes e até obscenos. Tal como hoje, em certos casos!

Esse trabalho de reconstrução e requalificação da Baixa foi posto em prática pelo Marquês de Pombal que, tal como Hausmann, em Paris, mandou projectar praças e ruas obedecendo a regras urbanísticas precisas. Alegadamente, terá gerido os projectos e dirigido as obras através de uma equipa de projetistas por si orientada a partir de uma loja maçónica. Se em Paris a ambição foi maior, rasgando-se as grandes avenidas, numa cidade também muito mais populosa e com uma topografia mais vantajosa, por cá assistiu-se à criação de condições para que, a partir dos Restauradores, se assistisse à expansão  de Lisboa como a conhecemos até à segunda metade do séc. XIX.

  • A velha dicotomia entre espaços públicos, preenchidos por uma vida comunitária, e espaços privados, mais reservados ao recolhimento pessoal e familiar, é uma constante que subsiste desde eras tribais.

A globalização e rapidez nos transportes e sistemas de comunicação transformaram o mundo numa aldeia global , com todas as vantagens e inconvenientes daí decorrentes.

Assim como na reconstrução da Lisboa matricial, o terramoto seguido de  tsunami funcionou como pretexto para materializar e legitimar aspirações desde há muito sentidas, também com a actual pandemia desencadeada pelo Corona virus (até o nome transporta algo de semelhante, corona = corôa, enquanto símbolo de uma monarquia também ela posta em causa pela burguesia ascendente) se assistiu a uma legítima ponderação e institucionalização de uma prática que talvez tenha vindo para ficar, senão de uma forma generalizada, pelo menos com possibilidades de vir a ser implementada em largas franjas do mercado laboral, quer se trate de empresas privadas ou do sector público: o teletrabalho. E esta revolução, já antecipada nalguns países  europeus e norte americanos, mais evoluídos, vem testemunhar algumas vantagens que, de um ponto de vista economicista e da rentabilidade, se têm revelado eficientes na relação trabalho-emprego, se atendermos ao tempo utilizado em deslocações stressantes e custos suplementares suportados pelas empresas na disponibilização de recursos aos seus quadros médios e superiores.

Dir-se-há que o que se ganha em eficiência – desde que em casa sejam garantidos os meios e equipamentos necessários a um bom desempenho –  se  perderá no relacionamento social entre colegas com quem, presencialmente, se trocam experiências vividas e períodos informais de lazer e convivialidade, igualmente importantes numa relação profissional. Mas haverá sempre a possibilidade de se virem a implementar sistemas mistos de funcionamento, conjugando e conciliando períodos de trabalho ‘presencial’ com outros de tele-trabalho. Sendo óbvio que estas situações, a serem genericamente implementadas, introduzirão pertinentes alterações na configuração do espaço arquitetónico, induzindo à utilização de espaços polivalentes que permitam uma melhor flexibilização da sua utilização, com menores custos de construção. Terá de existir uma melhor adaptabilidade e reconversão dos espaços para sistemas de ocupação intermitentes.

Esta simples alteração nas relações profissionais poderá igualmente conduzir a uma desconcentração administrativa e deslocalização do centro para a periferia de fatias importantes do sector terciário, que arrastarão a fixação de novos serviços como a restauração e o turismo. É comum, nas grandes cidades, o sistemático recurso à restauração a preços módicos, porque sustentados por um mercado garantido de clientes.

A alteração de um paradigma baseado em relações profissionais de proximidade para quem trabalha em open space e que, de repente, se vê constrangido a um isolamento que determina o enclausuramento materializado por baias de acrílico ou policarbonato, implica uma alteração nos comportamentos humanos para a qual as tradicionais disciplinas de projecto não estão preparadas. Haverá certamente um período de adaptação que deverá ser seguido e experimentalmente testado por psicólogos e sociólogos, já que a massificação destes novos procedimentos acarretará transformações profundas na tradicional equação casa-trabalho.

Com implicações garantidas no sistema de transportes e mobilidade e na desertificação das cidades. Também com alterações a nível do sindicalismo e das organizações associativas. E com o provável reforço e desenvolvimento (já grande) das redes sociais, convidando a uma reflexão sobre o papel  da comunicação social  e do jornalismo.

  • A presença e o contacto físicos são experiências que tendem a aproximar as pessoas.

O tacto e as carinhosas manifestações de afeto –  mas também as hostis – fazem parte de relações humanas ancestrais que nunca serão substituídas por outras virtuais, a não ser em casos excepcionais. A substituição de relações humanas baseadas na proximidade por outras desprovidas de sentimentos e potencialmente fabricadas por robots ou induzidas através de inteligência artificial não deixarão de ter implicações psico-sociais importantes.

Se os robots não forem considerados como portadores de infecção, poderá vir a ser tentador a sua utilização massiva no mercado de trabalho, sem os incómodos sociais promovidos por processos reivindicativos de proteção social, férias, aposentações, doenças, etc …, acarretando a sua proliferação uma redefinição dos espaços de trabalho, quer a nível de dimensionamento, mobilidade e apoios sanitários.

As alterações do nosso quotidiano decorrentes desta pandemia já são enormes, como é enorme

a tentação instigada pelo medo e o aproveitamento político para condicionar os cidadãos. À boleia de medidas preventivas e cautelares necessárias, poderá existir a tentação de, abusivamente, cercear liberdades e limitar a livre circulação. Bem ou mal intencionadas, estas medidas transportam sempre consigo um enorme desafio para a arquitetura e o planeamento urbano, tidas como disciplinas de aproximação dos cidadãos, e não de isolamento e separação.

Poder-se-á sempre vislumbrar uma inexplicável beleza numa cidade que dorme, vigiada por candeeiros acessos e pelo vaguear solitário de um noctívago abandonado ou de um casal apaixonado, e sobre isso muitos poetas já escreveram e continuarão a fazê-lo. Mas uma cidade adormecida não é uma cidade morta e o despertar é sempre motivador e brutalmente estimulante. Faz parte dos ciclos da natureza urbana, de um organismo vivo no qual vivemos, nos movemos e temos o nosso ser.

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