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A NOVA ERA (NEW AGE)

 

 

OPINIÃO

A NOVA ERA (NEW AGE)

Por Fernando Ziegler Raimundo

 

 

”Love seeketh not itself to please
Nor for itself hath any care
But for another gives its ease
And builds a Heaven in Hell’s despair”

(O amor não busca agradar a si mesmo / Nem destina qualquer cuidado a si próprio / Mas dá-se facilmente ao outro / E constrói um Paraíso no desespero do Inferno).

William Blake (1757-1827), in ”The Clod and the Pebble” publicado em Songs of Experience, 1794.

Foi o poeta e pintor inglês do período romântico William Blake (1757-1827) quem pela primeira vez usou o termo Nova Era (New Age, em inglês) no prefácio do seu poema Milton, em 1804. Não existindo unanimidade relativamente ao significado exacto deste termo, ele tem sido utilizado como significante de uma panóplia de interpretações de índole religiosa e identitária de grupos ligados ao esoterismo e a diferentes sensibilidades dentro do espiritualismo.

Mas é fundamental referir que a existência das Eras é sustentada por uma razão de fundo, de ordem cósmica e cientificamente assumida e demonstrável, que se relaciona com os vários movimentos que a Terra possui e descreve em torno do sol, no plano da eclíptica, e das suas projeções face ao zodíaco.

Assim, comecemos por referir que para além dos dois mais conhecidos movimentos a que o nosso planeta está sujeito – o de rotação e o de translação – existem mais três, a ‘Precessão dos Equinócios’, a ‘Nutação’ e a ‘Verticalização’, sendo o primeiro particularmente importante.

A Precessão dos Equinócios é um movimento cónico que a Terra descreve em torno do seu eixo de rotação, tal como um peão quando começa a perder velocidade.

Já a Nutação é uma pequena oscilação periódica do eixo de rotação da Terra, com um ciclo de cerca de 18,6 anos, que faz com que aquele movimento cónico não seja linear mas recortado, em forma de uma linha quebrada (“serrada/dentada”, como a configuração das folhas de algumas plantas). Deve-se à força gravitacional da Lua sobre a Terra.

Quanto à Verticalização, afirmou a NASA que desde 1899 o eixo da Terra oscilou cerca de 10,5 cm por ano, devido a alterações climatéricas e à interação gravitacional com a Lua.

Um dos efeitos visíveis da Precessão dos Equinócios resulta no facto dos pólos da Terra não apontarem sempre para o mesmo ponto de céu, fazendo com que cada um descreva uma circunferência , ao percorrerem os doze signos zodiacais durante cerca de 25.926 anos. Portanto 2.160 anos e 6 dias por signo, ou Era! É disto que se trata quando falamos que saímos da Era de Peixes – marcada pela vinda de Cristo – e entrámos, ou estamos a entrar, na Era de Aquário, prenunciadora de um forte impulso espiritual e civilizacional, segundo a Tradição, que alegadamente atingirá a sua

plenitude dentro de uns 600 anos, após conturbados momentos que temos vindo a viver de forma cada vez mais acentuada e que parecem ser normais em fins de ciclo, na transição entre Eras. O IV Império, nascido com a Era de Peixes, começou precisamente com a civilização greco-romana que, no seu apogeu, estabeleceu a matriz do nosso modelo civilizacional.

Quando a partir da segunda metade do século passado começaram a surgir movimentos e correntes artísticas nas áreas do realismo mágico, da literatura fantástica e da ficção científica – lembram-se do ‘Despertar dos Mágicos’ (Louís Pauwels e Jacques Bergier), escrito em 1960? – e as preocupações ambientais passaram a fazer parte da agenda das pessoas e sociedades mais esclarecidas, começou a assistir-se ao aparecimento de um conjunto de organizações que, não partilhando necessariamente do mesmo tipo de objetivos e metodologias, possuiam em comum um forte cunho contestatário relativamente aos princípios nos quais assentavam os sistemas sociais do Ocidente.

Movimentos como o ‘Maio de 68’, em França, a contestação à guerra do Vietname e as derivas ‘hippy’, nos Estados Unidos da América, entre outros, questionavam o paradigma que sustentava o conceito de progresso, materialmente concebido, e que com ele também transportava a questão da felicidade.

É o conjunto desses movimentos de índole romântica que no seu todo caracterizam e sustentam a vaga conhecida por Nova Era, numa profusão e mistura de conceitos pacifistas e ambientalistas, alegadamente prenunciadores de uma época marcada por uma fraternidade universal, descontextualizados das religiões organizadas, preconizando o retorno a formas de vida menos artificiais, em estreito contacto e respeito pela Natureza, pondo em causa o materialismo consubstanciado em opções consumistas galopantes que coexistiam com situações de miséria e carências extremas, que preconizavam a não-violência (make love, not war) e uma vivência em comunidade mais sustentável com a ordem natural das coisas.

Muitas das organizações que surgiram como contestação aos modelos políticos e religiosos tradicionais, os quais não souberam dar respostas adequadas aos desafios que o desenvolvimento das sociedades acarretava, viraram-se então para o Oriente, importando práticas meditativas e alternativas de vida que algumas vezes também enriqueceram os gurus que habilmente exploraram o manancial de seguidores menos informados e que cegamente aceitavam todas as ‘ofertas’ embrulhadas em tentadoras promessas de obtenção do paraíso na Terra, à custa de alteração de estados de consciência, quantas vezes utilizando alucinogéneos e terapias alternativas de duvidosa eficácia.

Em contrapartida têm surgido artigos de caracter científico – e a ciência, com todas as limitações, continua a ser um repositório credível, e incrível (!), de esperança para os desafios do mundo – que equacionam, numa perspectiva quase divinatória, a possibilidade de cerca de metade da humanidade que actualmente habita a Terra poder vir a viver, dentro de 200 a 300 anos, temporária ou definitivamente, noutros planetas do sistema solar.

As motivações para esses putativos movimentos migratórios (trans)planetários em massa poderão ser de vária ordem, mas torna-se quase óbvio que na origem dessa

inevitável premência radica uma incapacidade do ser humano em conseguir resolver os graves problemas que criou e que puseram em causa a sustentabilidade energética do planeta, no que se refere à boa gestão dos recursos e aos acentuados desequilíbrios demográficos. Como advogam prestigiados sociólogos e psicólogos sociais, será urgente refundar certos princípios ecológicos, dando primazia a uma ecologia da mente!

Uma coisa é tentar encarar a permanência temporária de humanos na Lua ou em Marte, obedecendo a motivações de cariz turístico, científico ou exploratório enquanto outra, bem diferente, será a de essa possibilidade corresponder a uma necessidade absoluta de preservação da espécie.

E seguramente que o desenvolvimento científico, cada vez mais focado nos domínios da inteligência artificial e da transformação genética, permitirá responder a esses desafios, ficando por se saber acerca dos mecanismos de controlo dos limites éticos que essas descobertas suscitam.

Será pois através do equilíbrio entre as posturas científicas que estimulem a investigação séria acerca do conhecimento dos mistérios da Natureza, por um lado, e das atitudes psico-sociais emergentes de condutas eticamente sustentáveis, nos planos individual e coletivo, que a Nova Era surgirá enquanto repositório de esperança numa sociedade mais justa que conduza, daqui a uns séculos, ao estabelecimento de uma fraternidade universal, neste planeta, se tal for possível, ou em qualquer outro que venha a ser colonizado, se assim tiver de ser.

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