A ARTE DA POESIA – 126ª EMISSÃO – 18,30H – ARMANDO SILVA CARVALHO.

COMPACTO BIBLIOTECA DA CRUZEIRO – 116ª EMISSÃO – 13.00/15.00H
3 Junho, 2017
PDR APRESENTOU ONTEM CRISTINA BARRADAS COMO CANDIDATA À CÂMARA MUNICIPAL DE ODIVELAS
3 Junho, 2017

A ARTE DA POESIA – 126ª EMISSÃO – 18,30H – ARMANDO SILVA CARVALHO.

Armando Silva Carvalho (1938-2017): um poeta ácido, lúcido, erótico, político.

O autor morreu quinta-feira, 1 de Junho, aos 79 anos, num hospital das Caldas da Rainha. Tinha publicado há dois anos um dos grandes livros da poesia portuguesa contemporânea, A Sombra do Mar, que ganhou quantos prémios havia para dar.

RUI GAUDÊNCIO

 

O poeta Armando Silva Carvalho, um dos nomes maiores da literatura portuguesa contemporânea, morreu um pouco antes das oito da manhã desta quinta-feira 1 de Junho, no hospital Montepio Rainha D. Leonor, nas Caldas da Rainha, na sequência de um cancro nos pulmões que só há dias fora diagnosticado. Tinha 79 anos.

O seu corpo foi velado a partir do meio da tarde de quinta-feira na igreja de Olho Marinho, no concelho de Óbidos, onde o poeta nasceu, e o funeral saiu sexta-feira às 17h30 para o cemitério local. A missa foi celebrada pelo seu amigo, e também poeta, José Tolentino Mendonça.

Autor de alguns dos mais importantes títulos da poesia portuguesa das últimas décadas, como Alexandre Bissexto (1983), Canis Dei (1995) ou Lisboas (2000), não só escreveu quase até ao fim, como o vinha fazendo ao mais alto nível: a energia criativa do seu último volume de poemas, A Sombra do Mar(2015), escrito já a caminho dos 80, só tem talvez paralelo recente em Servidões (2013), de Herberto Helder, a quem Armando Silva Carvalho presta aliás homenagem num dos melhores textos do livro, O Grande Artesão.

Um depoimento de Gastão Cruz

Digamo-lo de forma simples e directa: autor de primeiro plano, Armando Silva Carvalho deixou, desde o começo, uma marca fortemente individualizada na poesia portuguesa. Essa originalidade é imediatamente visível no seu primeiro livro, Lírica Consumível, a que foi atribuído o Prémio Revelação da Sociedade Portuguesa de Escritores (como então se chamava), em 1962, num tempo em que outros premiados  se chamavam Fiama Hasse Pais Brandão (Teatro) ou Almeida Faria (Romance).

Lírica Consumível só sairia em 1965, na colecção de poesia da Ulisseia, mas o poeta ficara, sem dúvida, associado aos que, logo no início da década, haviam definido um espaço de inovação, nomeadamente Herberto, Fiama ou Luiza Neto Jorge.

Por vezes aproximado a esta última, porventura devido a uma certa ousadia crítica e sarcástica, que, em ambos, denotava a herança surrealista, Armando apresenta, logo nos seus três primeiros livros (Lírica ConsumívelO Comércio dos Nervos e Os Ovos d’Oiro) o pendor para a criação de uma linguagem, frequentemente de matriz satírica, o que levou a uma comparação com Alexandre O’Neill, que, aliás, o admirava. Porém, a sátira de Armando é mais ácida e explosiva, o que define, em grande parte, a sua escrita poética, que tão bem encaixa no enquadramento experimental ou experimentalizante da poesia de 60.

Os comentários estão fechados.